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16 de set. de 2010

Mostra Ampla de Cultura, Tecnologia e Inovação

Dentre as interessantíssimas palestras, destaco uma que nos interessa mais. Mo dia 29 de setembro, às 11:00h, Nelson Motta vai falar sobre o futuro da indústria fonográfica e as novas formas de se consumir e vender música.

Foi num texto do Nelsinho que vi pela primeira vez uma citação do David Bowie prevendo que a música ainda seria consumida como água.

19 de jan. de 2010

Música gravada: uma bolha no tempo

www.michaelspornanimation.com/splog/?p=1251

Brian Eno:

"Acho que discos foram apenas uma bolhinha no tempo e aqueles que conseguiram seu sustento com eles foram uns sortudos. Não há razão por que se ganhe tanto dinheiro vendendo discos , exceto quando tudo estava certo naquele período de tempo. Eu sempre soube que iria dar errado cedo ou tarde. Não podia durar muito, e agora está dando errado. Não me importo particularmente que seja assim e gosto da forma que as coisas vão indo. A era do disco foi apenas uma piscadela. Era com se você tivesse banha de baleia nos anos 1840 e a utilizasse como combustúvel. Antes de aparecer a gasolina, se o seu negócio fosse banha de baleia você seria o homem mais rico da Terra. Aí veio a gasolina e você ficou para trás com sua banha de baleia. Foi mal, parceiro – a história continua. Música gravada é igual a banha de baleia. No fim, outra coisa a substituirá."

Do original no Guardian:

“I think records were just a little bubble through time and those who made a living from them for a while were lucky. There is no reason why anyone should have made so much money from selling records except that everything was right for this period of time. I always knew it would run out sooner or later. It couldn’t last, and now it’s running out. I don’t particularly care that it is and like the way things are going. The record age was just a blip. It was a bit like if you had a source of whale blubber in the 1840s and it could be used as fuel. Before gas came along, if you traded in whale blubber, you were the richest man on Earth. Then gas came along and you’d be stuck with your whale blubber. Sorry mate – history’s moving along. Recorded music equals whale blubber. Eventually, something else will replace it.’’

13 de dez. de 2009

Gerd "Media Fururist" Leonhard em Recife



Vejam só. O Gerd Leonhard não só se apresentou em Recife na Feira Música Brasil como disponibilizou em seu site a apresentação feita especialmente para o evento - e que nós "embedamos" aqui.

Ele bota fé na importância do Brasil na criação de novos modelos de negócio para a música e cita a célebre frase de Clair Shirky: "A revolution doesn't happen when a society adopts new tools. It happens when a society adopts new behaviors" – se bem que para adotar novos comportamentos, muitas vezes só seja possível após o surgimento de novas tecnologias, não é mesmo?


Aproveito para mostrar com uma pontinha de orgulho e imodéstia a identidade da Feira, criada pelo meu escritório de design, a Tecnopop.

23 de nov. de 2009

Zerando o Copyright em 2013


Deu na Revista Digital de O Globo de hoje:

* * *
O fim é em 2013
Lei americana permitirá a artistas e escritores retomar direitos autorais

André Machado

No que diz respeito ao delicado terreno do entretenimento digital, podemos apostar que o fim do mundo não será em 2012, como quer o filme de Roland Emmerich, mas em 2013. A partir de então, as últimas três décadas da indústria cultural como a conhecemos poderão ir pelos ares graças à letra fria da lei — pelo menos a dos EUA. Isso porque, em 1976, o Congresso americano aprovou o Copyright Act, especificando que, se um compositor ou escritor vendeu os direitos de suas obras a uma gravadora ou editora antes de 1978, tem o direito de retomá-los 56 anos depois da venda (o que já permite a retomada, este ano, de quem gravou ou escreveu algo e cedeu os direitos até 1953, lá).

Pode ser um golpe duro para a indústria musical, que tem recorrido a tudo para se manter em pé — de ringtones de celulares a investimentos em turnês e shows, sem falar dos jogos do tipo Guitar Hero e Rock Band. E as editoras não ficam atrás, a vingar a onda iniciada pelo ereader Kindle, que já tem como concorrentes Sony Reader, Nook (da Barnes & Noble) e, recentemente, até o Intel Reader, capaz de passar converter textos impressos em forma digital. E sem falar de redes P2P, blogs e torrents com toneladas de ofertas de downloads, projetos como Google Editions e assim por diante.

Tudo isso está registrado na seção 304 da lei (www.copyright.gov/title17/92chap3.html#304.) Já na seção 203 está escrito que essa mesma retomada de direitos pode ser levada a cabo 35 anos depois da venda, se ela ocorreu depois de 1º de janeiro de 1978 (www.copyright.gov/title17/92chap2.html#203).

Esses 35 anos da última provisão citada vencem exatamente a partir de 2013, quando os artistas podem requerer de volta seu copyright e revendê-lo diretamente — pela internet... — sem a necessidade de intermediários.

Ainda há muito ranger de dentes, mas o desfecho da história pode não ser negativo.

Pelo contrário, afirma Renato Opice Blum, advogado brasileiro especializado em direito digital .

— A retomada dos direitos autorais certamente vai mexer com o mercado, gerar novas negociações e contratos e levar a um melhor aproveitamento das novas tecnologias — diz ele.

Existe um outro aspecto dessa “bomba-relógio” jurídica, que se aplica também ao Brasil, segundo o advogado e presidente do iCommons Ronaldo Lemos.

Nos contratos de artistas e autores brasileiros com as empresas, a questão é diferente da que está acontecendo lá fora.

— Nossa bomba-relógio é outra. Ela consiste no fato de que sempre que um artistas cede suas músicas para a editora, ele autoriza apenas o uso nas tecnologias existentes no momento da cessão — explica o presidente do iCommons. — Em outras palavras, muitos artistas que fizeram contratos nos anos 80 e até nos anos 90 não podem ter suas obras exploradas em ringtones de celular, internet e outras formas de utilização inexistentes até então.

Nos últimos tempos, encarniçadas batalhas judiciais pelos direitos autorais têm sido travadas nos EUA. Os herdeiros do escritor John Steinbeck (dos clássicos “As vinhas da ira”, “Sobre ratos e homens”), por exemplo, ganharam em 2006 e perderam em 2008 os direitos sobre seus livros, que ficaram com a Penguin Books. Já em agosto deste ano, os herdeiros de Jerry Siegel, um dos criadores do Super-Homem, ganharam os direitos sobre as primeiras histórias publicadas do herói, numa disputa com a Warner Brothers e a DC Comics.

Segundo o site Law.com, especializado em Direito, esses processos vão ficar ainda mais beligerantes a partir de 2013. De acordo com o site, advogados a serviço de artistas e grupos como Eagles, Journey, Barbra Streisand e outros já estão em campo pesquisando o estado de contratos antigos de seus clientes.

— Algo parecido está acontecendo aqui no Brasil.

Artistas como Gilberto Gil, Zé Ramalho e Chico Buarque estão pleiteando nos tribunais interpretações para retomar os direitos que cederam às editoras — lembra Ronaldo. — O fundamento é diferente dos EUA, não por conta de tempo, mas de outras peculiaridades da lei brasileira. A decisão do Gil saiu há alguns anos e ele conseguiu reaver na Justiça todos os seus direitos. O Chico e o Zé Ramalho ainda não têm decisões finais.

Richard Stallman, pai do movimento do software livre e um dos ativistas mais ferrenhos contra o estado atual do copyright, diz num ensaio que a própria concepção dos direitos autorais levou a distorções.

— O sistema de copyright provê privilégios e benefícios a autores e editores, para incentiválos a escrever mais e publicar mais, em benefício do progresso e do público — diz Stallman, que aponta o erro de dar poder excessivo aos editores por longos períodos.

— Mas, se o copyright é uma barganha feita em nome do público, deveria servir ao interesse deste acima de tudo. Eu jamais comprarei um desses e-books encriptados e restritos [leia-se Kindle, por exemplo], e espero que vocês os rejeitem também.

É o caso de esperar para ver o que os artistas farão quando lhes couberem a faca e o queijo na mão. Se a indústria deixar. Em 1999, tentouse uma emenda ao Ato de 1976, que não vingou.

Uma alternativa, ao menos para a indústria musical, seria gravar novas versões de velhas músicas, para criar novos prazos de direitos autorais, e deixar os antigos com os artistas.

Por ora, fica um bom exemplo do grande mestre Ray Charles, que negociou seu contrato com a ABC Records e pediu que os masters de suas gravações pertençam a ele. A reação do dono da gravadora foi algo como “Mas ninguém faz isso...”. Entretanto, o cantor conseguiu: o acordo, de novembro de 1959, deu-lhe o direito de reter todos os seus masters após a conclusão do contrato, garantindo-lhe segurança financeira. Um acordo mais liberal do que muitos artistas pop tinham então — e ainda hoje!.

31 de ago. de 2009

Música Digital: a solução. Primeira parte - Fazendo as pazes


Há uma guerra velada quando o assunto é baixar música. Por um lado temos os que berram que estão sendo roubados pelas pessoas que baixam músicas sem autorização. Do outro lado, muita gente que torce pelo desmantelamento total da indústria da música, como se isso fosse uma revolução para derrubar o poder. Os dois lados se olham com extrema má vontade e desconfiança. Isso só atrasa a possibilidade de se criar um consenso que nos leve a uma realidade benéfica para todos.

Quero tentar estabelecer uma ponte entre todos os interessados em música, das grandes gravadoras ao partido pirata. Parece ambicioso? Talvez seja, mas acho que é algo possível com um pouco de boa vontade e bom senso. Sei que, a essa altura, já devo estar parecendo estranho para os dois “times”.

Venho participando de muitos encontros diferentes e tenho percebido que o que existe é muita falta de informação. Discursos solidificados em torno de ideias nem sempre muito elaboradas.

Não dá mais para fingir que o mundo é o mesmo do milênio passado, nem que as regras antigas ainda se aplicam nesse novo mundo. Mas ainda há direitos a serem respeitados, contas a serem pagas e acervos maravilhosos nas mãos das gravadoras. A revolução digital nos faz voltar a olhar para o direito autoral e rever os caminhos que tomou, mas não para acabar com ele. O importante é fazer com que o direito do autor não seja um monopólio que impeça o acesso da humanidade a um patrimônio que pertence a todos, mas que ainda incentive os criadores a produzirem cada vez mais em prol da sociedade. E o dinheiro é um grande incentivo.

Para que as conversas possam prosseguir, e não sejam boicotadas por um lado ou por outro, é necessário que haja propostas concretas para se construir o nosso novo mundo.

Mas antes é preciso desmantelar alguns preconceitos.

Vamos aos radicalismos que eu vejo sendo cometidos em ambos ao “lados”, que impedem a troca sensata de ideias.

1) Temos que combater a "pirataria digital".

Em pesquisas nos Estados Unidos e na Inglaterra, uma grande parcela dos “conectados” afirma compartilhar arquivos na internet ou fora dela. Segundo a UK Music, 86% dos jovens ingleses entre 14 e 24 anos já copiaram um CD para um amigo; 75% enviaram musica por e-mail, Bluetooth, Skype ou MSN; 57% já copiaram a coleção de musicas completa de um amigo; 39% já baixaram música. Isso não quer dizer que muito mais gente não baixe música sem o declarar. Ainda mais com as ameaças que a RIAA e o Governo Britânico vêm fazendo. Mas as propostas de punição aos “piratas”, com multas e desconexão da internet, são caras, lentas e ineficientes. Dependem de advogados, juízes e muito dinheiro. E nunca será possível alcançar todos os “infratores”. Os juízes franceses já avisaram que o direito de acesso à internet é, hoje, um direito do ser humano, que também usa a rede para trabalhar, se comunicar, pagar contas, se informar etc. Portanto, para privar um cidadão de tal direito ele tem que ser julgado. Imaginem isso aqui no Brasil, quanto tempo levaria para que alguns usuários fossem “punidos”? Não parece uma solução muito razoável, não é?

Outro detalhe muito importante é que, para que uma pessoa tenha sua privacidade legalmente violada para fins de investigação, o crime em questão tem que ter pena prevista no Código Penal superior a um ano. Para cópia de material protegido sem permissão do autor a pena varia de três meses a um ano. Portanto, não seria um caso em que o tribunal autorizaria a quebra de privacidade, o que inviabilizaria a investigação. Sem investigação não há processo e, muito menos, condenação. O que fazer? Aumentar a pena? Aí, a mudança não é mais do direito autoral, mas do Código Penal.

Tive uma conversa muito boa e longa com o José Vaz do Ministério da Cultura, num vôo entre Brasília e Fortaleza, e ele se revelou fã da tarifa plana para o compartilhamento de arquivos digitais - porque já é consenso no Ministério que o controle é ineficaz. Cobrar uma taxa para quem acessa a internet, proporcional à velocidade de conexão do usuário, para ser distribuída entre os detentores de direito autoral é muito mais simples e barato que correr atrás de perigosos “marginais cibernéticos”. No entanto, esse modelo ainda não foi aplicado em nenhum país do mundo. Não há uma fórmula pronta de arrecadação e distribuição dessa taxa. Precisamos inventar a melhor solução para o Brasil. Essa conversa inicial é importantíssima, mas temos que nos lembrar, também, que quem faz as leis não é o executivo. O Ministério pode propor o que quiser, mas tem que ser aprovado pelo congresso. E para que esse aprove um projeto tão inovador tem que ser muito bem informado a respeito. Até o momento, apenas um lado, o lobby das gravadoras, vem fazendo pressão no congresso. Não sei qual a autonomia das majors no Brasil em relação à política beligerante da matriz, mas é hora delas assumirem uma postura mais aberta nesses debates. Para o bem delas mesmas. Temos que dar voz a todos os atores dessa história para que a solução seja a melhor possível. E temos que conversar muito, sem achar que o outro lado, qualquer que seja o seu, é o dos bad guys.

2) Não devemos processar os fãs, mas não podemos legalizar o download gratuito.

Muitos “conservadores moderados” são contra o download não autorizado, mas não querem processar usuários. Concordam que essa atitude é antipática e inútil. Chegam a recriminar a RIAA. Ora, sem processo não há punição. E sem punição no horizonte, na prática, não há crime. Sem uma pena, o que impedirá o usuário de baixar uma canção? Nada. E não sejamos ingênuos a ponto de achar que uma campanha de conscientização poderia alterar significativamente as práticas sociais. Não conseguimos nem "arranhar" a atividade dos piratas de CDs, roupas, brinquedos etc. com as campanhas na TV. Então, se concordamos que processar nossos fãs não é o caminho, temos que abrir mão das nossas tentativas de controle e começar a imaginar alternativas para sermos remunerados. O download para fins não comerciais tem que ser legalizado. O meio do caminho não vai resolver nosso problema.

Isso é muito diferente da teoria de que “tem que ser tudo gratuito” e que “o artista só vai ganhar nos shows”. Ouvi de um teórico marxista que toda produção é social porque o autor recebeu da sociedade as armas e a bagagem para poder criar e que, por isso, sua obra deveria ser gratuita.

Temos que inventar um novo negócio. Para isso temos que tentar encontrar um caminho que ambos os “lados” possam percorrer juntos, sem radicalismos. Não é hora de buscarmos o confronto, mas os pontos em comum.

Continua em breve. Mas antes queria muito ouvir as opiniões de todos a respeito dessa questão.

16 de jul. de 2009

O browser é o novo i-pod e o aplicativo móvel é o novo CD


Traduzi este recente texto do Gerd Leonhard (16/7/2009), que fala de tendências que temos discutido aqui no Musicalíquida. Ele se autodenomina um futurista e costuma ter ideias polêmicas, que por isso mesmo são um bom combustível para as nossas próprias.

***

O acesso à música – isto é, um simples click-to-play, em qualquer lugar, a qualquer hora, qualquer coisa – está substituindo a propriedade. Esta tendência se acelerará rapidamente devido ao crescimento global da conectividade em banda larga barata e sem fio, nos levando ao ponto onde escutar uma música será exatamente o mesmo que baixá-la (ao menos em termos práticos, da perspectiva do usuário). Alguns de nós argumentarão que isso já acontece, claro, mas em termos de adoção pelo usuário em grande escala, eu diria que estamos a cerca de 18 meses do ponto de virada nos assim chamados países em desenvolvimento.

A indústria da música precisa urgentemente se preparar para isso: vender acesso e não (apenas) cópias. Juntar. Empacotar. Desenvolver esses novos geradores. "Se as cópias são de graça, você tem que vender coisas que não podem ser copiadas" (Kevin Kelly, The Techium).


Outra importante tendência a adotar é o movimento em direção aos aparelhos móveis que em grande parte substituirão o computador como primeiro ponto de acesso à internet, ou seja, a todo conteúdo digital. Mais aplicativos para smart-phones tomarão o lugar dos aparelhos de som; música será vendida como/em/via/com software. Leia como Pandora está fazendo isso nos EUA.

19 de jun. de 2009

O futuro a Deus pertence, o passado está escrito - 2



A continuação do texto do Beni.

***
A PRS (Performing Rights Society) não é sigla que costume frequentar manchetes de lugar nenhum.

Faz umas semanas , foi notícia em diversos pontos da blogosfera o acordo que a PRS celebrou com os sites ingleses, para redução de 60% do valor cobrado pelo streaming de música. É um poderoso sinal dos tempos que o “Ecad do Reino Unido” assuma um papel de protagonista nas negociações que viabilizam o rádio do futuro.

Nessa altura do campeonato já se pode dizer que os serviços de streaming (Sonora, Uol, Last Fm, Imeen, Pandora, Spotify etc...) terão um papel fundamental na divulgação de música nos próximos anos. As negociações desses novos serviços com as velhas sociedades de arrecadação de direitos de execução pública , tem um papel central na sobrevivência dessas empresas.

Quem diria que uma instituição que nasceu de um insignificante caso policial de 162 anos atrás teria ,em pleno século XXI , esse papel relevante em definir o nosso futuro.



Em Paris, no ano da graça de 1847 , o compositor Ernest Bourget foi tomar "umas" no Café-Concerto Ambassadeur com um colega. Enquanto estavam lá a orquestra tocou diversas canções de Bourget, muito populares na ocasião.

Quando chegou a conta , que não era nenhuma grande despesa , Bourget virou pro garçom e simplesmente disse que não ia pagar. Ele argumentou que suas músicas estavam sendo executadas lá e ele não estava ganhando nada por isso , portanto não via razão para pagar quem estava usando o que era dele sem lhe dar nada em troca.

Fez-se a confusão, chamaram o gerente , mas Bourget ficou irredutível. Não ia pagar e pronto. Chamaram a polícia, foi aberto um inquérito, e no final de um longo processo o juiz decidiu que Bourget tinha razão. A casa não poderia mesmo executar a música dele sem sua autorização. Além dele não pagar a conta , o compositor ainda faturou uns caraminguás que o juiz mandou o café-concerto pagar como indenização.

Assim, uma decisão judicial sobre um caso de valor ínfimo estabeleceu o direito do compositor de cobrar pela execução pública da sua música , antes de quaisquer uma das muitas leis que viriam a regular os direitos do autor.

Esse episódio inspirou Bourget a fundar em 1851, junto com alguns colegas e o seu editor, a SACEM, a primeira sociedade de compositores na França , que se encarrega desde então de cobrar os direitos dos compositores e dos intérpretes pelo uso público das suas obras .

O modelo francês de uma sociedade de compositores sem fins lucrativos, foi a inspiração para a criação de instituições semelhante pelo mundo todo, que cobram em nome dos autores e intérpretes de quem toca sua música.

Eu ,que recebo faz décadas minha merreca do Ecad, nunca podia imaginar que devia aquele dinheirinho a uns goles a mais que um compositor francês tomou em meados do século XIX.

Saudações musicais,

Beni

18 de jun. de 2009

Virgin e Universal anunciam download ilimitado de música

A música-como-comodity-streaming avança. Deu no clicRBS:

***

Virgin e Universal anunciam download ilimitado de música

Descarga livre de arquivos do catálogo vai custar cerca de € 17

A operadora de televisão a cabo britânica Virgin Media e a maior produtora musical do mundo, a Universal, anunciaram esta semana a criação conjunta de uma loja online que permite aos assinantes descarregarem um número ilimitado de músicas.

O serviço permitirá que, por um preço que rondará as € 17, os assinantes ouçam ou descarreguem todas as músicas da Universal que pretendam. Será, assim, um concorrente direto do iTunes, a loja de música online da Apple que cobra por cada faixa ou álbum.

O serviço deverá estar disponível até ao final do ano, apenas no Reino Unido.

Como parte de um acordo entre ambas as empresas, a Virgin irá também combater a partilha ilegal de conteúdos detidos pela Universal, podendo chegar mesmo a suspender por tempo limitado as ligações dos piratas que utilizam o seu serviço de acesso à internet.

A medida poderá ser polêmica, já que, na semana passada, o Conselho Constitucional francês chumbou uma muito controversa lei que pretendia criar uma entidade não judicial para cortar o acesso a quem descarregasse ficheiros ilegalmente.

O anúncio do acordo surge um dia antes do ministro das Comunicações britânico, Lord Carter, apresentar o Digital Britain, um relatório com várias propostas para lutar contra a pirataria digital.

Hobnox: criando música eletrônica online



Descobri o fascinante projeto Hobnox por uma dica do músico Alexandre Pereira, que por lá já "brincou". Como definir Hobnox? Vejam o que eles dizem de si próprios (os grifos são meus):

Hobnox is an online entertainment and publishing platform, a network for creatives and their fans. We unite broadcast-quality web media with cutting edge community-enabling technology. With Hobnox, an international media corporation is born. Created for artist by artists, Hobnox combines the best of current web entertainment with the newest technological possibilities of the internet to create fascinating opportunities for both artists and audiences.

Between November 2007 and February 2008, Hobnox called on artists to submit their projects to the "Hobnox Evolution”, an artist-development program that encouraged over 1,500 projects to be submitted for review. These artists became the first generation of the Hobnox-community. The development process of Hobnox embarked onto the next level:
a community, stage, library and the first web-based production tools for artists are now in a public beta-phase.

On hobnox.com
artists can present their content to the community, work on projects, collaborate and connect with like-minded artists. It will be the online platform for the creation and presentation of sophisticated web-entertainment. It will be a meeting point, a stage, a workshop and eventually a marketplace for creative content. In July 2008, these aspirations were awarded with the Grimme Online Award.



Se no Indaba music é possível mixar online trilhas de áudio, aqui é o lance é criar música eletrônica. O que chama mais atenção em Hobnox são as ferramentas online de criação de áudio e vídeo, o Audiotool e o Livetool, além de uma biblioteca de sons e imagens. Tudo free. Me concentrei no Audiotool, que tem uma interface linda, extremamente bem feita e metafórica, lembrando o Reason. Você vai arrastando com o mouse as máquinas de ritmo, o sequenciador de baixo, as mesas de 16 canais e os pedais de efeito e ligando uns aos outros com cabos. E pode gravar suas criações com até 5 minutos de duração.



Apesar dos recursos ainda muito limitados, é realmente fascinante, não apenas pela diversão de criar música eletrônica online, mas pela promessa de uma plataforma como essa elevada a um nível pro, num futuro não muito distante, à medida que as conexões com a web aumentarem de velocidade. É a fome com a vontade de comer: comunidades de pessoas criativas compartilhando ferramentas poderosas de criação.

Passem por lá e digam o que acharam.

17 de jun. de 2009

O futuro a Deus pertence, o passado está escrito - 1



Texto do Beni Borja.

***

Visões apocalípticas nos assaltam por todo lado. O produto físico acabou. A música gravada será gratuita. Os publicitários vão tomar conta do negócio e todos faremos jingles. Morreremos todos de fome. Parece interminável a lista de desgraças previstas para o nosso destino de fazedores de música.

Prever o futuro é esporte de alto risco, do qual já me aposentei.

O certo é que estamos perdendo a locomotiva do negócio da música como conhecíamos. Mas o trem é longo, e essa não será a primeira vez que trocamos de locomotiva. Uma visita aos 250 anos de história que precederam as nossas incertezas de hoje, talvez possa nos acalmar um pouco.

Duzentos e cinquenta anos!?! É isso mesmo que voce leu. O negócio da música começou a tomar a forma empresarial que ele tem hoje em meados do século XVIII, quando as primeiras editoras de música foram fundadas.

As editoras são as empresas mais antigas do negócio da música. Se chamam editoras porque originalmente o seu negócio era publicar partituras. Algumas dessas empresas ,com mais de duzentos anos, como a italiana Ricordi e a inglesa Boose & Hawkes , continuam publicando partituras até hoje.

No final do século XIX , para ouvir música era preciso que alguém a tocasse. As partituras eram então a locomotiva da música.
Para um compositor dessa época, ter sua música publicada por uma grande editora era como para um artista de anteontem ter seu disco lançado por uma grande gravadora, era o caminho inevitável para alcançar o sucesso comercial.

No início do século passado, em poucos anos, a música gravada substituiu as partituras como propulsora do negócio da música. Quando o público inevitávelmente passou a preferir ouvir Enrico Caruso do que o tenor desafinado da esquina , uma paisagem desconhecida tomou o horizonte da música.

Então apareceram os inevitáveis cavaleiros do apocalipse. Quem vai escrever música, sem editoras para lançá-las ? Quem vai fabricar instrumentos se só músicos profissionais vão tocá-los? Quem vai pagar as nossas contas??

A crise veio e muitas editoras fecharam ou foram compradas por outras. Mas com o passar dos anos muitas sobreviveram, porque usaram o relacionamento que tinham com os compositores para se tornarem suas representantes nas relações que eles precisaram estabelecer com as novas gravadoras e os intérpretes das suas obras.

As editoras, desde então, são as representantes dos autores na exploração comercial das suas obras. Esse papel de representante (muitas vezes feito de forma lesiva aos interesses econômicos do autor, mas isso é conversa que não cabe aqui) garante as editoras um lugar destacado no empurra-empurra de rearrumação que estamos vivendo entre os principais atores no negócio da música.

Ou seja, muita calma nessa hora , porque o futuro a Deus pertence.

Saudações musicais,

Beni

9 de jun. de 2009

Indaba Music: mixando online


Descobri o Indaba Music não me perguntem como, pois já esqueci. Indaba é uma palavra zulu que evoca espírito de colaboração e comunidade. O negócio lá é propiciar projetos colaborativos de música, inclusive com uma ferramenta de mixagem online.

Ao se inscrever, você pode criar Sessions na área MyStudio, fazendo upload de seus arquivos de referência e as trilhas independentes.

Como a coisa é organizada como uma comunidade, você indica para os outros as características do seu projeto (estilo, instrumentos, andamento etc.) e o que você está precisando (um baixista, um produtor, arranjador etc.). Você pode deixar o projeto aberto a experiências de estranhos ou não, assim como licenciá-lo pelo Creative Commons. Também tem outras ferramentas disponíveis, como um blog.

O mais legal mesmo é o editor de música online (Session Console). Programado em Flash, tem o visual e o comportamento típicos dos GarageBands e similares. Só que ainda é, compreensivelmente, muito limitado em recursos. Mas é surpreendentemente ágil se considerarmos que é online. Vejam abaixo um vídeo explicativo do Session Console.



Eu diria que é ainda uma brincadeira deliciosa, inclusive para gente grande. Mas, com o avanço da velocidade de acesso no futuro, pode se tornar coisa séria.

Ah, é de graça, mas com limite de uso. Totalmente liberado, são 100 dólares por ano.

19 de mai. de 2009

Aldus Manutius e a música hoje


O software do New York Times mostrado pelo Leoni aqui embaixo parece sensacional, não? Torço para que a coisa dê certo.

O mercado editorial, em especial o jornalístico, é a bola da vez a passar pelo cataclisma que acometeu a indústria do disco. O New York Times está em situação quase desesperadora e se aguenta até 2011. Deu n'O Globo de hoje que a revista Newsweek passou por uma reformulação, oferecendo mais conteúdo, a um preço maior, mas mirando um público mais exclusivo.

O curioso é que, desde os anos 90, os jornais já sabiam que essas mudanças viriam e pensaram em mais de uma estratégia para se adaptar, sem sucesso. Uma delas era conteúdo free, baseado em anúncios. Como se vê, nem de longe compensou a queda das vendas e de anúncios da versão impressa.

Talvez um dos grandes erros deles tenha sido a suposição de que o "velho" necessariamente se adapte ao "novo". Muitas vezes não é o que acontece. As revoluções, antes de se estabilizarem, antes que uma nova ordem se estabeleça, passam por períodos de transição caóticos, confusos.

Assim foi com a invenção do tipo móvel. Uma ordem cultural inteira foi varrida do mapa, criando um estado de insegurança enorme, mas estabilizado décadas depois: o fim do poder da Igreja sobre a cultura, a ascenção das línguas vernaculares em detrimento do latim, a alfabetização, o fim de muitas certezas. É assim com revoluções: o antigo é destruído antes que o novo seja criado. Só com Aldus Manuntius (quem é designer, conhece), é que o livro passou para o formato e proporções próximas às de hoje, se tornou portátil, caiu de preço e foi popularizado.

Isso me faz pensar que o impensável às vezes pode acontecer. Tomorrow never knows. As tais cadeias produtivas podem sofrer mais mutações do que possamos imaginar. E mesmo que tenhamos uma enorme afeição pelo jornal do café da manhã (eu, ao menos, tenho), ele não é sinônimo de notícia, por mais que os vejamos como uma coisa só. E, no fim das contas, notícia de qualidade é o que realmente importa.

Vocês não acham que isso tem alguma coisa a ver com a indústria da música?

PS: O texto acima foi inspirado pela leitura deste aqui.

14 de mai. de 2009

Música por streaming se populariza

A revista Época desta semana tem uma reportagem sobre a popularização de sites de música por streaming. O simples fato do assunto aparecer na revista já é um sinal importante. O crescimento de gente acessando a web via I-Phone e outros gadgets móveis só faz aumentar a tendência ao streaming, em detrimento do mp3.

A matéria foca no site brasileiro Sonora e no sueco Spotify.


Desde fevereiro deste ano o Sonora está com o conteúdo aberto, de grátis. Tem 200 mil assinantes e cresce numa base de 2.500 por dia. Isso no modelo gratuito, pois há três planos pagos, de 9,90 a 19,90 reais por mês. O plano grátis, pelo que vi, dá direito a 20 horas por mês - e anúncios entre as músicas. Nos planos pagos é possível baixar, mas ainda com os indefectíveis DRMs. A remuneração varia, mas de uma forma geral os lucros são repassados para as gravadoras de acordo com o número de vezes que a música foi ouvida. E da gravadora para o artista. Lucro? Dizem os caras do Sonora que ele é lucrativo desde o início, por ter herdado patrocinadores do portal Terra.

Eles têm um acervo até grandinho. Mas fiz uma pesquisa e não têm Beatles ou The Who, por exemplo. Estão lutando para tocar a Warner também.


O Spotify tem mais de 1 milhão de usuários só na Inglaterra e cresce a uma base de 20 mil pessoas assinantes diários. Lá já estão Caetano, Chico e até uns sertanejos. Há bons nomes de música clássica também - isso, no Sonora, nem em sonho. Uma coisa bacana é que, assim como a Last.fm, ele contextualiza os artistas, com dados sobre biografia e discografia. O Sonora não tem isso.

O site tem três pacotes de acesso. Para o Brasil só é possível acessar o último, pago.

Aqui abaixo vai uma comparação entre os recursos dos dois sites:

Acervo
Sonora: 1 milhão de músicas
Spotify: 3 milhões de músicas

Rádio
Os dois têm, mas o Spotify oferece seleção combinada de ano e ritmo.

Playlist
Em ambos as playlists personalizadas ficam memorizadas

Download
O Sonora tem planos de downloads ilimitados, o Spotify não.

Acordos com gravadoras
O Spotify tem com todas as grandes, o Sonora não tem a Warner.

Biografias e informações
Só no Spotify.

Acesso no Brasil
O Sonora tem acesso gratuito e assinaturas. O Spotify, só assinaturas.

Histórico do usuário
No Sonora, de até seis meses atrás

13 de mai. de 2009

Thru You: Kutiman remixes Youtube



Muito se fala da cultura do remix, mashups etc. Este site aí em cima é um dos troços mais radicais e bem feitos que tenho visto nessa onda. É uma ideia simples: o tal do Kutiman cuts the crap e remixa os próprios vídeos do Youtube. Como não podia deixar de ser, ele também tem página no Myspace.

23 de abr. de 2009

Algumas respostas


Depois do bode criado pelos posts discutindo O Culto do Amador, me penitencio aqui com um revigorante trecho de um artigo do Gerd Leonhard sobre, entre outras coisas, quais serão os fatores que determinarão valor no mundo digital. Vai em inglês mesmo, ok?

So what are those future value-determining factors? Here are a few from a long list that I have been compiling:

  • The best quality experience, at the perfect time. Compare listening to a low quality audio-stream on your mobile, in the train, to enjoying an HD recording on your living room (or car?) sound system. The first one could be feels-like-free or bundled, the other one could be a premium, paid-for service. The difference is just my particular use case, not the 0s and 1s.
  • A new, attractive and convenient package (or shall we say, alternate user interface?) A powerful and very recent example is 'The Presidents of The United States of America' iPhone app: the user pays a one-time fee of $3 for free, on-demand streams and videos from the last 4 albums, and lots of up-selling is built right into the app. iPhone users that are fans are very likely to shell out $3 to get this cool widget, and in a way I guess they are now actually paying for what they would otherwise have gotten for free, anyway (i.e. to listen to their favorite music, on-demand). Plus, the band now has a direct and totally unique path to their biggest fans - and that is the new gold, in my opinion. Sounds like a great deal to me: package it nicely and it will sell regardless of free alternatives.
  • Also note that this same phenomena is what still sells printed books. The words i.e. the content anyone can probably get for free, somewhere, but the feel and smell of the paper, the physical format, the touch, the familiar and comfortable user-interface (UI) is what I am actually paying for when I buy the good old, dead-tree version. In other words, I pay for the design, the printing and shipping, and only implicitly for the 'words'. It is important to note, though, that nice user interfaces will soon be available on electronic reading devices, as well, therefore leading us to that very same, original question: what will we pay for when we buy content, ultimately? We may soon enter the age of content-as-software-packages: many of us may soon no longer order the printed versions of books (last not least because of environmental concerns) but we may happily pay a few Euros a month for a digital book subscription, or add it in a bundle via our mobile phone bill, only to then buy the 20 Euro multimedia / virtual world edition of a book we really like - except that it won't be printed and shipped but also downloaded to my mobile device.
  • Authenticity and timeliness. I foresee a future where I will gladly pay a bit more to make sure that what I get is the bona-fide real thing, from the actual creator, in its correct version and without any shortcuts or changes. An authorized, paid-for English translation of the new Paulo Coelho book (digital or otherwise) would certainly be more enticing to me than 'free' copy that is not stamped with his approval. And if I can get it the moment that it's finished, even better (and I pay another premium).
  • Selection, expert curation, filtering, culling, context, annotation. In my experience, few people have time to find the best music for a specific occasion. Why would I bother looking for a great selection of ambient 'space music' for my yoga sessions when a true, bona-fide authority such as Stephen Hill (Producer of the superb Hearts of Space / HOS online radio show) has already done this for me? My payment to HOS would therefore be not so much for the actual songs, it's more for the service of having them filtered and annotated by a real expert.

Google passa a dar música de graça... na China



O Google está liberando arquivos mp3 legais e de alta qualidade na China. É uma estratégia para abocanhar uma fatia maior do mercado chinês, que hoje é de 28%. Eles pretendem gerar receita a partir de anúncios.

Há um artigo no Media Futurist comentando este importante passo rumo à liquidifcação da música. Será?

18 de abr. de 2009

Desmaterializar: mudando as maneiras de nos relacionarmos com produto e propriedade



Tradução livre de um artigo de Chris Arkenberg em Urbeingrecorded.

Há uma imensa e rápida mudança ocorrendo no terreno das ferramentas & tecnologia. Cada vez mais, produtos estão se desmaterializando e transformando-se em serviços. Esta mudança é impulsionada em parte pelos crescentes custos de produção e pela consciência cada vez maior dos impactos ambientais reais de se produzir bens duráveis e depois descartá-los jogando-os em aterros sanitários. É também uma resposta à rápida digitalização da cultura, empurrando bens de consumo para trocas de informação menos tangíveis, geralmente mediados por aparelhos cada vez mais fetichizados. Portanto, o conteúdo está se afastando de suportes fixos como discos e papel e, em vez disso, fluindo por redes e aparelhos.

Talvez o exemplo mais icônico e revolucionário desta tendência seja a dupla da Apple iPod e seu serviço, o iTunes. Ao longo dos últimos 20 anos, milhões e milhões de Cds, DVDs, embalagens e encartes impressos consumiram recursos em hard media irrecuperável ou pouco reciclável e enchendo os lixões. A Apple fundamentalmente reescreveu seu paradigma ao desmaterializar o conteúdo – música e filmes – e conectá-los diretamente com o player. Os custos energéticos e materiais foram conjugados em um (espera-se) aparelho mais durável, liberando o conteúdo transacional de enorme volume de uma carga imensa de recursos. Enquanto há custos de fabricação associados ao aparelho, o impacto é reduzido ao subtrair esses custos do conteúdo.

Tem havido, desde então, um movimento cada vez maior dos produtos em direção aos serviços, o que é facilmente mostrado com a ascensão dos serviços online na era da Web 2.0. As câmeras digitais são outro exemplo que, como o iPod, desvincularam a incansável produção de conteúdo de um suporte tóxico e não-renovável – nesse caso, filme e papel fotográfico. Da mesma forma, a própria produção afastou-se de tintas e papéis caros, tóxicos e desperdiçadores e rumou para a onipresença das telas. Mais e mais conteúdo “impresso” - antes domínio de revistas, jornais, livros e publicidade em geral – se afasta dos suportes palpáveis. Novamente, o padrão mostra o conteúdo livre dos subtratos materiais para mover-se sem esforço através de redes e aparelhos.

Há alguns efeitos interessantes desta tendência. Claro, a pirataria do conteúdo se torna consideravelmente mais fácil e barata. Conteúdo pode ser movido e copiado através das redes sem esforço, e proteção a cópias é apenas um conjunto de bits a ser crackeado. Como Stewart Brand argutamente observou, “informação quer ser livre” e a rápida digitalização da cultura reforçou radicalmente esta proposição, forçando cada indústria pré web a reavaliar completamente seus modelos de negócio.

Por outro lado, a "bitificação" do conteúdo e a democratização de poderosas ferramentas desktop de autoração potencializaram e encorajaram a tentação histórica de remixar e revitalizaram maciçamente nossa criatividade cultural. Ironicamente, numa época que permitiu a tantos criar tanto, a noção de propriedade intelectual tem menos respeito do que nunca. Quando seu conteúdo contém bits de 10 outros pedaços de conteúdo, ele pertence a quem? Como foi notado por muitos autores e analistas, o gênio saiu da garrafa.

Mas talvez o mais interessante sejam as mudanças comportamentais e psicológicas em resposta a essas tendências. À medida que as coisas se transformam em bits intangíveis, o fato de que não podemos mais tocar o produto sutilmente enfraquece a nossa noção mesma de propriedade. Começamos a considerar nossa relação com as coisas mais como algo com que interagir do que possuir. Se por um lado isso é potencialmente libertador, também facilita aos provedores de conteúdo assegurar propriedade total perpetuamente: você está meramente pegando emprestado um conteúdo através de um serviço provido pelo “real” proprietário. Sem a propriedade direta, estamos protegidos e ainda temos o direito de compartilhar?

Em relação ao conteúdo, a propriedade pessoal passou para o aparelho – o cada vez mais fetichizado recipiente pelo qual o conteúdo está fluindo constantemente. Nossos smart phones são extensões incrivelmente potencializadas de nós mesmos, conferindo habilidades inimagináveis ao dono. O mais simples e mais intuitivo desses aparelhos tornam-se uma segunda natureza, extensões de nossos corpos, facilmente conectando-nos uns aos outros, a conteúdos, a vastos estoques de conhecimento. É claro que fetichizamos tais objetos e é claro que nos tornamos dependentes deles.

A industrialização lamentavelmente otimizou seu modelo de negócio através da obsolescência planejada, com muitos produtos projetados para quebrar, forçando um aumento das vendas do próximo modelo. Sem dúvida, os aparelhos em que hoje confiamos tanto têm suas próprias falhas embutidas, sejam intencionais ou apenas consequência da margem de lucro, que incentiva a não investir em mais qualidade do que seja absolutamente necessária. Então, serão os benefícios da desmaterialização dos conteúdos de suportes baratos anulados pelas exigências de recursos e quebra inevitável de nossos aparelhos? Terá o impacto energético e ambiental poupado pela não utilização de papel duplicado pelo simples custo de fabricar e manter vastas server farms globais?

Qualquer avaliação real da desmaterialização dos produtos para os serviços deve considerar o imenso impacto da infraestrutura que a suporta. Apesar disso, é para onde estamos indo. Os aparelhos portáteis serão cada vez mais dedicados a conteúdo e transient marketing. As telas continuarão a se multiplicar a uma velocidade exponencial, se encaixando em cada aspecto de nossas vidas. Fabricantes de hardware serão cada vez mais observados por comitês de padrões internacionais e acionistas, prestando contas dos impactos ambientais e de carbono de seus processos. E a noção de objeto e propriedade continuará a ser desafiada de formas ainda desconhecidas.

17 de abr. de 2009

Outro jogo


Recebemos o texto abaixo do Beni Borja, pensador da música e amigo do blog. Ao relacionar o momento atual com o processo revolucionário histórico, propõe boas reflexões. O título é um jogo com outro texto dele postado aqui.

* * *

Morreu o rei. Viva o rei!

Normalmente quando um rei morre, o povo já conhece o seu sucessor. Não há nenhuma confusão, nenhuma inquietação. O povo dá quinze minutos de atenção ao novo rei, e segue sua vida sem maiores sobressaltos.

Numa revolução, ninguém substitui imediatamente o rei destronado . Há sempre um momento de vazio de poder. Ninguém sabe quem manda , ninguém sabe a quem recorrer. Durante essa transição vive-se numa total incerteza sobre o futuro. Uma situação muito estressante, mesmo para não quer mandar em ninguém.

Nesse momento de confusão, os revolucionários proclamam que o poder acabou, que agora viveremos como cidadãos livres, independentes do poder dos outros. O povo se agita , cada um toma um partido, mas inevitávelmente o poder se reorganiza. E por fim um novo mandatário tomará o lugar do antigo.

Essa pequena lição básica de ciencia política pode ter alguma serventia , num momento como o atual.

Estamos vivendo tempos revolucionários no negócio da música.

Os reis (gravadoras) foram destronados. Antes elas tinham o poder de decidir quem ia ser popular e quem ia ficar tocando para as paredes. Não mais. No vácuo do poder, os revolucionários ( os "geeks" da vida) proclamam que viveremos todos felizes para sempre, sem poderosos. Cada um por si, numa família feliz.
Não creio.

Nessa altura do campeonato , imaginar que cada um de nós ,criadores de música ,vai se relacionar diretamente com seus fãs ,sem nenhuma intermediação corporativa, me parece uma visão de um inferno medieval. Para quem se preparou a vida toda para fazer música, ficar administrando "amigos" nos myspaces e orkuts da vida, parece uma condenação a um purgatório infinito.

Músicos querem fazer música, não querem administrar negócios.

A especialização do trabalho é um fato inescapável da vida econômica no nosso tempo. Quem faz arte ,se puder, se ocupará só de criar. Quem gerencia os negócios que surgem à partir da arte , tenderá a se ocupar exclusivamente de fazer dinheiro com a criação dos outros. Essa divisão de trabalho é um avanço da civilização, que não vai desaparecer só porque apareceu um novo modelo de negócios. Passado o momento de confusão , continuaremos tendo empresários e artistas.

Rezo e torço para que tenhamos no futuro um sistema de comercialização de música melhor do que aquele do qual ,sem nenhuma tristeza, agora nos despedimos . Um sistema mais inclusivo, mais respeitoso, que entenda os prazos e os compromissos da arte. Não sei o que o futuro nos reserva. Mas não é difícil enxergar que o poder está migrando dos detentores de música gravada para os promotores de música ao vivo.

Se o dinheiro está na música ao vivo , é de lá que devem sair os futuros poderosos fazedores de sucesso, que inevitávelmente surgirão.

Saudações musicais ,
Beni

28 de mar. de 2009

20 coisas que você tem que saber sobre música online



O livro 20 Things You Must Know About Music Online, de Andrew Dubber, é um guia de estratégias para músicos se posicionarem na internet - pensando bem, não apenas para músicos. É escrito, e editado de forma clara e concisa. Direto ao ponto. Pragmatismo na veia.

Um bom recurso do Dubber é resumir logo no início as tais 20 coisas que desenvolverá ao longo do livro. Aqui abaixo vai a minha tradução para este resumo. As falhas de estilo e as imprecisões vocês podem creditar a mim.

1. Don’t Believe the hype
Sandi Tom, Artic Monkeys e Lily Allen não são superfamosos, ricos e bem sucedidos só por causa do MySpace ou porque eles milagrosamente atraíram uma multidão de milhares para o seu site caseiro. Ralações públicas, mídia tradicional, gravadoras e dinheiro estiveram todos envolvidos.

2. Ouvir / Gostar / Comprar
É a regra de ouro. Pessoas ouvem música, então elas gostam da música e aí elas compram a música. É a única ordem que rola. Se você tenta fazer em qualquer outra sequência, simplesmente não funciona.

3. Formadores de opinião é que mandam
Sabemos da importância do rádio e da mídia impressa. Existem agora novos formadores de opinião que vão contar a sua história com credibilidade. Você precisa descobrir quem eles são – ou melhor ainda, tornar-se um deles.

4. Customize
Uma solução sob medida, ou pelo menos algo pré fabricado adaptado à sua presença na web, é crucial. Uma solução “de prateleira” irá praticamente garantir seu anonimato.

5. A Cauda Longa
Chris Anderson provou cabalmente que o varejo do futuro é vender menos de mais. Ponha tudo online. Expanda seu catálogo. Você fará mais dinheiro vendendo um grande número de produtos de nicho do que uns poucos hits.

6. Web 2.0
Não tente ser um destino – torne-se um ambiente. Seu website não é uma publicação – é um lugar onde pessoas se encontram e conectam-se com você e umas com as outras.

7. Conecte-se
Seu website não é uma estratégia promocional. Aprenda como contar uma história e como contá-la da maneira adequada para comunicação na web. Pense como poderia ser traduzida seja para mídias novas ou tradicionais.

8. Cross-promote
Suas coisas online não são um substituto para suas coisas offline, assim como não existem independentes delas. Descubra como fazer interseções entre as duas.

9. Menos clicks
Isso é especialmente verdadeiro se você quer que alguém compareça com dinheiro. Se eu tenho que preencher um formulário, navegar por três camadas de menu e aí então digitar uma senha, não vou querer mais a sua música.

10. Profissionalismo
Se esse é o seu negócio, você precisa transparecer isso. Trate seu perfil online da mesma forma que trataria suas demais peças de comunicação comercial.

11. A morte da escassez
A economia da internet é fundamentalmente diferente da economia do mundo das estantes e dos estoques limitados. Você pode dar um milhão de cópias de seu disco para vender mil.

12. Identidade distribuída
De uma perspectiva de relações públicas, é melhor você se espalhar pela internet do que permanecer em um lugar. Comunidades, perfis, comentários e redes são incrivelmente úteis.

13. O.M.B.
Você precisa entender como a Otimização de Mecanismos de Busca funciona e como maximizar suas chances de ser encontrado. Seja achável e procurável.

14. Permissão
Sua mensagem deve ser bem vinda, relevante e pessoalmente útil. Deixar as pessoas escolherem se juntar a você é uma estratégia muito mais efetiva do que mandar spams.

15. RSS
Disponibilize-o, use-o e ensine-o. RSS é o elemento mais importante do seu site. Trate-o como tal – mas lembre-se que é ainda novo para a maioria das pessoas. Ajude seu público a adotá-lo.

16. Acessibilidade
Nem todo mundo tem computador rápido ou acesso banda larga. Nem todo mundo tem o dom da visão. Faça de modo que tudo o que você fizer online seja acessível. É fácil, é importante e evita que as pessoas desistam logo na porta.

17. Recompense e incentive
Agora tudo é acessível o tempo todo. Dê às pessoas um motivo para considerar você como parte do envolvimento econômico delas com a música.

18. Frequência é tudo
“Repeat business” é uma das mais bem sucedidas estratégias comerciais na indústria cultural. Você quer que as pessoas voltem? Dê-lhes algo para retornar que elas não tenham visto antes.

19. Seja viral
Seja lá o que você fizer, faça de forma que as pessoas queiram enviar para outras pessoas. Sua melhor propaganda é o boca a boca, porque online o boca a boca é exponencialmente mais poderoso.

20. Esqueça o produto – venda relacionamento
O antigo modelo de negócio da música é dominado pela venda de artefatos individuais por uma soma estabelecida de dinheiro. O novo modelo tem a ver com iniciar um contínuo relacionamento econômico com uma comunidade de fãs.