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23 de jan. de 2010

1450-1550: um espelho distante


Deu no Estadão este – mais uma vez – ótimo texto do Pedro Dória. Como complemento, sugiro a leitura de um post nosso sobre o mesmo tempo e tema, de alguns meses atrás.

Revolução Digital: o fim da escassez de informação
22 de janeiro de 2010
Por Pedro Doria

Se eu fosse um estudante de história, hoje, com mestrado ou doutorado à frente, me dedicaria a examinar a Europa no século entre 1450 e 1550.

Mas, antes, um pulo ao presente.

Não é difícil explicar como as tecnologias digitais viraram o mundo de cabeça para baixo. Começa com um conceito econômico básico: escassez. Se há demanda por um bem escasso, haverá gente disposta a pagar para tê-lo. A indústria que lida com informação – não só jornais como cá o Estado, mas também livros, música, cinema e tantos outros – se baseava na escassez de dois bens. Fazer cópia de informação – livro, disco, filme – era caro. E distribuir a informação copiada para vários pontos de uma cidade, estado ou país, era igualmente caro.

Tecnologias digitais, a internet entre elas, jogou o preço no chão. Não é de graça – banda larga, afinal, tem lá seu custo, computador e celular de ponta também – mas comparado ao que havia antes, é quase de graça.

Avatar custou 500 milhões de dólares para ser feito. É um filme particularmente caro. O problema é que filmes como Atividade Paranormal – 15.000 dólares – são também exceção, não regra. O preço de um bom filme está, no mínimo, na casa dos centenas de milhares. Sempre foi caro. Cidadão Kane, de 1941, saiu por 690.000 dólares (dá uns 10 milhões ajustando pela inflação). Mesmo o cinema independente: O Acossado, de Jean-Luc Godard, custou 82.000 dólares em 1960, 587.000 em dinheiro atual.

Tecnologia digital barateou equipamento, mas gente continua precisando de dinheiro. Bom fotógrafo, iluminador, figurinista. O que dá a um filme uma certa estética à qual nos habituamos é um conjunto grande de profissionais. El Mariachi custou 7.000 dólares em 1992. É um excelente filme B e lançou seu diretor, de Robert Rodriguez, para a fama. (Rodriguez fez de tudo nas filmagens.) Seu segundo filme, Desperado, saiu por 7 milhões. Bons filmes podem ser feitos por muito pouco, mas a economia tem efeitos imediatos na estética. Se, em algum momento, a indústria do cinema for incapaz de pagar pela produção, passaremos a ter filmes fundamentalmente diferentes. Nenhum juízo de valor aqui. Mas algo terá sido perdido.

O que sempre pagou o preço foi a exploração do fato de que copiar e distribuir era caro. Eram poucos os lugares nos quais se podia ver um filme. Com controle quase total sobre quem copiava e distribuía, muita gente fez fortunas ainda que pagando altos custos de produção.

Um elemento ainda protege a indústria do cinema. Os arquivos são grandes. As gravadoras foram duramente atingidas por volta de 2000, no momento em que modems mais rápidos e o início da banda larga fizeram com que a transferência de arquivos de música pela rede se desse em poucos minutos. E banda larga, evidentemente, aumenta de capacidade a cada ano.

Cinema é só um exemplo. Toda indústria que lida com informação está sendo atingida de uma forma ou de outra. Não é a primeira vez que algo assim ocorre. A imprensa de Johannes Gutenberg entrou em operação no ano de 1450. Não teve repercussão imediata na vida de seu criador, que morreu falido. Mas espalhou-se pela Europa toda nas décadas seguintes, barateando violentamente o preço da cópia de informação. Um século após, o continente estava completamente transformado.

Muitos livros e ensaios foram escritos para tratar dos efeitos da tecnologia de impressão. São amplamente conhecidos. Mas apenas um livro – The Printing Press as an Agent of Change, de Elizabeth Eisenstein – foi escrito para tratar das ansiedades e desconfianças do momento em que a mudança ainda estava ocorrendo.

É o período fascinante em que vivemos.

26 de mai. de 2009

A Maravilhosa História do Teatro Mágico - 1ª parte



Gustavo, o empresário do Teatro Mágico e irmão do Fernando Anitelli - compositor e cantor da trupe circense/musical -, vai nos contar em capítulos a bem sucedida história deles. Talvez a mais impressionante carreira alternativa do país. Eu só li o primeiro capítulo e já estou muito curioso para saber como a aventura continua.

"Há pouco tempo atrás tomei contato com este blog através de colegas de bandas independentes do Paraná – em especial, o pessoal da banda “Nuvens”. Participei de um seminário sobre comunicação livre, e lá procurávamos encontrar agentes na música que pudessem ter um discurso parecido conosco; a afirmação de um modelo alternativo à cadeia atual monopolista da música....pois bem aqui estou eu.

Nesta difícil tarefa de resumir em um texto a conjuntura da música nacional e internacional, e nós dentro disso tudo, vou contar a primeira parte desta história, quando decidimos se era a pílula azul ou a vermelha.


Há 15 anos eu era uma criança, ainda não havia entrado na adolescência, já era muito próximo de Fernando, meu irmão, figura que futuramente eu iria empresariar no ramo musical. Naquela época, me lembro de participar de algumas viagens com a banda dele, meu pai sempre nos acompanhava, eu de longe também ouvia as histórias que enchiam todos de esperança: “o cara é amigo do primo de um funcionário da Globo!!!”, “disse que vai levar nossa fita para a produção do Faustão!!!” ; “O produtor deste show disse que não tem cachê, mas que pode nos apresentar para um locutor da radio 89FM!!!”

Eram estas notícias que alimentavam nossos sonhos, nos mantinha aquecidos para uma possível oportunidade, e assim vivíamos a ingênua ilusão de que, um dia, seríamos premiados com um contrato em uma gravadora, como um presente que viria do céu, que nem um disco voador, um estrela cadente, um eclipse da lua e de marte ao mesmo tempo, o tipo de coisa que só acontece uma vez na vida, em 1 milhão de vidas.

Bem, vivemos assim durante cerca de 8 anos, esperando, esperando, esperando, esperando...até que a esperança foi ficando lá trás. Após perder dinheiro na mão de picaretas dizendo que tinham contatos, que nos levariam para turnês no exterior - pasmem, meu pai desesperado colocou a mão no bolso pra isso -, depois de uma série de engodos, o fato era que a gravadora não contratava mais quem não tivesse o investimento inicial no Álbum, o amigo do primo que trabalhava na Globo era só um auxiliar administrativo da segurança e disco voador não existia .....estava tudo acabado, não havia mais espaço para gente nova e sem dinheiro na música brasileira.... até que uma pequena luz no fim do túnel se acendera: uma gravadora aceitou gravar as músicas de Fernando!

No inicio comemoramos muito, era a entrada no “ main stream”, fomos gravar no Beebop. Chegamos por lá e nos disseram que o Zezé de Camargo tinha saído há pouco tempo porque estava gravando uma música lá também!!! Meu Deus, a gente nem gostava de sertanejo, mas estava de igual pra igual ali.

Este foi nosso segundo erro ingênuo, o primeiro foi ficar esperando o contrato de uma gravadora, o segundo foi assinar.
Depois de alguns dias e algumas horas de estúdio o dono da gravadora avalia que nossa música estava brasileira demais, a moda que estava começando a pegar era o ska, e portanto, teríamos que refazer tudo. Fernando, na sua inocência e coragem, não entende e não aceita modificar todos os nossos arranjos de uma hora para outra - e o dono da gravadora cancela o projeto.

Mas a novela não acaba aqui, o pior ainda estava por vir. O que foi mais dolorido foi, na assinatura do contrato com a companhia, com toda a empolgação, demos todos os direitos de todas as músicas que Fernando poderia gravar nos próximos 5 anos, ou seja, além de acabar com todas as nossas esperanças, Fernando ainda ficou trancado, silenciado, sem poder sequer fazer um CDzinho demo pra mostrar pros amigos.


Isso criou as bases para o nosso pensamento, perseguimos por anos respostas para um sistema engessado, onde os definidores da música são os atravessadores, negociantes de terno e gravata. Foi a partir deste tombo que chegamos a seguinte conclusão: Independência ou morte! Não vamos mais depender de contato de rádio, gravadora, TV, empresário. Chega, acabou, vamos começar a estabelecer um contato com 1 agente somente, o público, é ele que importa, é ele quem interessa!!!!


Vou continuar a história no próximo post. Por enquanto, o leitor que não conhece nosso trabalho só esta tomando contato com mais uma lenda urbana social comum em cada esquina. Posteriormente vamos narrar como que, a partir disso, pudemos vender mais de 160 mil cópias de nosso CD enquanto estas mesmas gravadoras vendem 30, 40 mil de seus principais artistas. Também vamos narrar como podemos colocar 6 mil pessoas em um show de bilheteria, sendo que estes mesmos empresários não conseguem colocar 1500 pessoas - depois de muito jabá pago.
"

Para conhecer um pouco do som da banda:

Ana E O Mar - Fernando Anitelli - O Teatro Mágico