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16 de jul. de 2009

O browser é o novo i-pod e o aplicativo móvel é o novo CD


Traduzi este recente texto do Gerd Leonhard (16/7/2009), que fala de tendências que temos discutido aqui no Musicalíquida. Ele se autodenomina um futurista e costuma ter ideias polêmicas, que por isso mesmo são um bom combustível para as nossas próprias.

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O acesso à música – isto é, um simples click-to-play, em qualquer lugar, a qualquer hora, qualquer coisa – está substituindo a propriedade. Esta tendência se acelerará rapidamente devido ao crescimento global da conectividade em banda larga barata e sem fio, nos levando ao ponto onde escutar uma música será exatamente o mesmo que baixá-la (ao menos em termos práticos, da perspectiva do usuário). Alguns de nós argumentarão que isso já acontece, claro, mas em termos de adoção pelo usuário em grande escala, eu diria que estamos a cerca de 18 meses do ponto de virada nos assim chamados países em desenvolvimento.

A indústria da música precisa urgentemente se preparar para isso: vender acesso e não (apenas) cópias. Juntar. Empacotar. Desenvolver esses novos geradores. "Se as cópias são de graça, você tem que vender coisas que não podem ser copiadas" (Kevin Kelly, The Techium).


Outra importante tendência a adotar é o movimento em direção aos aparelhos móveis que em grande parte substituirão o computador como primeiro ponto de acesso à internet, ou seja, a todo conteúdo digital. Mais aplicativos para smart-phones tomarão o lugar dos aparelhos de som; música será vendida como/em/via/com software. Leia como Pandora está fazendo isso nos EUA.

30 de jun. de 2009

Garoto de 13 anos troca o iPod por um walkman durante uma semana


Essa é mais curiosa e instrutiva para quem tem menos de trinta anos. O Globo reproduziu da BBC. Nós, aqui abaixo, reproduzimos de O Globo. Mas recomendo uma ida ao site da BBC para ver a matéria completa.

Garoto de 13 anos troca iPod por walkman por uma semana
Crédito: Reprodução site BBC Magazine

RIO - Como um garoto de 13 anos, apaixonado por música, se viraria nos dias de hoje privado de seu iPod e tendo de usar um ultrapassado walkman? A revista da BBC , em comemoração aos 30 anos do lançamento do ícone da Sony que revolucionou a música portátil, resolveu descobrir quais os choques culturais que surgiriam com a situação e sugeriu ao garoto Scott Campbell enfrentar o desafio por uma semana. O primeiro susto foi com o tamanho do aparelho, similar ao de "um pequeno livro". A cor, cinza tão sem graça quanto um céu nublado, também surpreendeu o garoto, acostumado com a enorme variedade de tons dos produtos da Apple.

E quanto ao funcionamento, o que ele mais estranhou? Scott conta que levou três dias para descobrir que havia um lado B na fita. Além disso, no início ele achava que a chave que muda o modo do cassete de "normal" para "metal" se referia a gêneros musicais. Uma maldade que nem o mais extremo estilo de Heavy Metal merece.



Acostumado com o "shuffle", função dos atuais mp3 players que permite ouvir a coleção de músicas de modo aleatório, no walkman Scott precisou improvisar segurando a tecla "rewind" e soltando o botão ao acaso.

"Eficiente, mas um pouco trabalhoso", comenta o menino.

Ao contar para o pai sobre sua engenhosidade, no entanto, ele aprendeu a diferença entre aparelhos eletrônicos (como os iPods) e mecânicos, com partes móveis, que davam origem ao terrível costume que os walkmans tinham de "comer" fitas.

"Meus cliques desajeitados poderiam ter arruinado minha fita e me deixado sem música para o resto do dia", concluiu.

Para chegar a uma outra diferença importante, Scott precisaria de mais alguns anos de uso. É inegável que os antigos walkmans (mecânicos) têm um tempo de duração muito maior que os iPods (e eletrônicos em geral). Não é difícil encontrar modelos da Sony funcionando até hoje, décadas depois do lançamento. Por outro lado, onde estará o seu mp3 player daqui a 20 anos?

Após uma semana de descobertas e revelações sobre as origens da tecnologia portátil que hoje domina o mundo, Scott se disse aliviado por viver na era digital, com mais opções, funções e aparelhos menores.

Entre os pontos negativos do walkman ficaram os ruídos do cassete que acompanham a música, a pífia duração das pilhas, o design tenebroso, com botões espalhados por todo o aparelho, e a pouca capacidade das fitas (12 a 14 músicas), que ainda precisam ter o lado trocado a cada meia hora.


O modelo original do avô do iPod, no entanto, também recebeu seus elogios. Além de oferecer duas entradas para fones de ouvido, possibilitando que mais de uma pessoa ouvisse música ao mesmo tempo; ele trazia um conector para tomadas.

"Mas considerando a péssima duração da bateria, acho que isso era mais necessidade do que uma função extra", ironiza Scott.

22 de abr. de 2009

Mais que mil palavras



Andando por aí, deparei com a foto acima. Espelhada em vários sites, acabei descobrindo que é de de Gabriel Openshaw . É uma mulher da tribo Mursi, da Etiópia, nada amistosos com estranhos. Além dos paramentos tradicionais, está portando um AK-47 e (reparem) dinheiro na mesma mão que segura o iPod.

Como ela conseguiu o iPod? Ela compra músicas na loja virtual iTunes? E o dinheiro? Que músicas será que ela escuta?

18 de abr. de 2009

Desmaterializar: mudando as maneiras de nos relacionarmos com produto e propriedade



Tradução livre de um artigo de Chris Arkenberg em Urbeingrecorded.

Há uma imensa e rápida mudança ocorrendo no terreno das ferramentas & tecnologia. Cada vez mais, produtos estão se desmaterializando e transformando-se em serviços. Esta mudança é impulsionada em parte pelos crescentes custos de produção e pela consciência cada vez maior dos impactos ambientais reais de se produzir bens duráveis e depois descartá-los jogando-os em aterros sanitários. É também uma resposta à rápida digitalização da cultura, empurrando bens de consumo para trocas de informação menos tangíveis, geralmente mediados por aparelhos cada vez mais fetichizados. Portanto, o conteúdo está se afastando de suportes fixos como discos e papel e, em vez disso, fluindo por redes e aparelhos.

Talvez o exemplo mais icônico e revolucionário desta tendência seja a dupla da Apple iPod e seu serviço, o iTunes. Ao longo dos últimos 20 anos, milhões e milhões de Cds, DVDs, embalagens e encartes impressos consumiram recursos em hard media irrecuperável ou pouco reciclável e enchendo os lixões. A Apple fundamentalmente reescreveu seu paradigma ao desmaterializar o conteúdo – música e filmes – e conectá-los diretamente com o player. Os custos energéticos e materiais foram conjugados em um (espera-se) aparelho mais durável, liberando o conteúdo transacional de enorme volume de uma carga imensa de recursos. Enquanto há custos de fabricação associados ao aparelho, o impacto é reduzido ao subtrair esses custos do conteúdo.

Tem havido, desde então, um movimento cada vez maior dos produtos em direção aos serviços, o que é facilmente mostrado com a ascensão dos serviços online na era da Web 2.0. As câmeras digitais são outro exemplo que, como o iPod, desvincularam a incansável produção de conteúdo de um suporte tóxico e não-renovável – nesse caso, filme e papel fotográfico. Da mesma forma, a própria produção afastou-se de tintas e papéis caros, tóxicos e desperdiçadores e rumou para a onipresença das telas. Mais e mais conteúdo “impresso” - antes domínio de revistas, jornais, livros e publicidade em geral – se afasta dos suportes palpáveis. Novamente, o padrão mostra o conteúdo livre dos subtratos materiais para mover-se sem esforço através de redes e aparelhos.

Há alguns efeitos interessantes desta tendência. Claro, a pirataria do conteúdo se torna consideravelmente mais fácil e barata. Conteúdo pode ser movido e copiado através das redes sem esforço, e proteção a cópias é apenas um conjunto de bits a ser crackeado. Como Stewart Brand argutamente observou, “informação quer ser livre” e a rápida digitalização da cultura reforçou radicalmente esta proposição, forçando cada indústria pré web a reavaliar completamente seus modelos de negócio.

Por outro lado, a "bitificação" do conteúdo e a democratização de poderosas ferramentas desktop de autoração potencializaram e encorajaram a tentação histórica de remixar e revitalizaram maciçamente nossa criatividade cultural. Ironicamente, numa época que permitiu a tantos criar tanto, a noção de propriedade intelectual tem menos respeito do que nunca. Quando seu conteúdo contém bits de 10 outros pedaços de conteúdo, ele pertence a quem? Como foi notado por muitos autores e analistas, o gênio saiu da garrafa.

Mas talvez o mais interessante sejam as mudanças comportamentais e psicológicas em resposta a essas tendências. À medida que as coisas se transformam em bits intangíveis, o fato de que não podemos mais tocar o produto sutilmente enfraquece a nossa noção mesma de propriedade. Começamos a considerar nossa relação com as coisas mais como algo com que interagir do que possuir. Se por um lado isso é potencialmente libertador, também facilita aos provedores de conteúdo assegurar propriedade total perpetuamente: você está meramente pegando emprestado um conteúdo através de um serviço provido pelo “real” proprietário. Sem a propriedade direta, estamos protegidos e ainda temos o direito de compartilhar?

Em relação ao conteúdo, a propriedade pessoal passou para o aparelho – o cada vez mais fetichizado recipiente pelo qual o conteúdo está fluindo constantemente. Nossos smart phones são extensões incrivelmente potencializadas de nós mesmos, conferindo habilidades inimagináveis ao dono. O mais simples e mais intuitivo desses aparelhos tornam-se uma segunda natureza, extensões de nossos corpos, facilmente conectando-nos uns aos outros, a conteúdos, a vastos estoques de conhecimento. É claro que fetichizamos tais objetos e é claro que nos tornamos dependentes deles.

A industrialização lamentavelmente otimizou seu modelo de negócio através da obsolescência planejada, com muitos produtos projetados para quebrar, forçando um aumento das vendas do próximo modelo. Sem dúvida, os aparelhos em que hoje confiamos tanto têm suas próprias falhas embutidas, sejam intencionais ou apenas consequência da margem de lucro, que incentiva a não investir em mais qualidade do que seja absolutamente necessária. Então, serão os benefícios da desmaterialização dos conteúdos de suportes baratos anulados pelas exigências de recursos e quebra inevitável de nossos aparelhos? Terá o impacto energético e ambiental poupado pela não utilização de papel duplicado pelo simples custo de fabricar e manter vastas server farms globais?

Qualquer avaliação real da desmaterialização dos produtos para os serviços deve considerar o imenso impacto da infraestrutura que a suporta. Apesar disso, é para onde estamos indo. Os aparelhos portáteis serão cada vez mais dedicados a conteúdo e transient marketing. As telas continuarão a se multiplicar a uma velocidade exponencial, se encaixando em cada aspecto de nossas vidas. Fabricantes de hardware serão cada vez mais observados por comitês de padrões internacionais e acionistas, prestando contas dos impactos ambientais e de carbono de seus processos. E a noção de objeto e propriedade continuará a ser desafiada de formas ainda desconhecidas.

30 de mar. de 2009

Nós não queremos nos sentar no sofá para ouvir sua grande obra

Traduzi e adaptei um texto do Bob Lefsetz que eu recebi hoje e que, eu acho, que tem tudo a ver com as discussões que já estão rolando por aqui:

"Você tem que parar de gravar álbuns.

No NYT de hoje tem uma história sobre a indústria dos games que afirma que os suspeitos de sempre, PlayStation 3, Xbox360 e até o Wii, estão sendo obscurecidos pelo iPhone/iPod Touch. Os jogos para esta nova plataforma móvel são baratos, quando não gratuitos, e você não precisa comprar um console caro.

O custo de criação de um jogo para os consoles antigos é de $25 milhões e só 16 em 486 geraram esse faturamento. Quase tão ruim quanto o lançamento de álbuns das majors.

Há duas razões para o fracasso dos álbuns. Uma, os Beatles fizeram um statement artístico e as gravadoras descobriram que havia muito mais lucro nos discos cheios que nos singles.

De alguma forma, nas décadas seguintes os artistas passaram a ver os álbuns como seu “cálice sagrado”, como um direito adquirido. E o ouvinte foi completamente ignorado.

O Napster separou o single do álbum – que era longo e caro demais - e agora o público tem a opção de só ter o que quer - e as pessoas não querem gastar tempo e dinheiro no pacote.

Não exclusivamente. Há alguns artistas que fazem statements que precisam de um álbum. Mas ele tem que ser entregue do mesmo jeito antigo?

Um fã de verdade quer mais e mais musica do seu artista favorito, mas ele não o quer despejado em sua cabeça como uma bomba, tudo num dia só. Ele quer receber novidade o tempo todo. Os músicos têm que entender que o mundo mudou.

Os selos odeiam isso, assim como os grandes fabricantes de games. O preço é muito baixo. Como competir com um garoto que cria um jogo no porão de casa? É exatamente o que está acontecendo com o iPhone/iPod Touch.

Os selos deveriam ter agido como a Apple que fica com 30% de todas as vendas de aplicativos. Ela verifica o produto para o consumidor e garante o pagamento ao criador. Esse é o papel de uma major no futuro, um portal de produtos pré-aprovados. Mas para isso acontecer teríamos que acreditar que as gravadoras aceitariam trocar dólares por centavos.

O público deu a sua palavra. “Nós não queremos nos sentar no sofá para ouvir sua grande obra, nós queremos exatamente o que queremos enquanto surfamos na Web, enquanto fazemos ginástica, enquanto levamos a vida.”

Se você quer ter uma carreira deve focar nos singles. E cada um deles deve ser atraente para o seu público. Se você quer atingir a massa de ouvintes casuais, empregos “ganchos” e truques. Mas se você quiser ter um público fiel, arrisque-se. Acredite em mim, se o The Doors gravasse “The End” hoje e lançasse só essa faixa ela se espalharia por toda a rede. Mas se lançassem “The End” com outras nove faixas num pacote de uma hora, não só as pessoas não a encontrariam, mas muitos fãs jamais chegariam a ouví-la. Eles sairiam para comprar um cachorro quente na hora que a banda tocasse algo do meio do álbum.

As pessoas estão soterradas e a solução da indústria tem sido dar ainda mais. Ao ponto das pessoas terem desistido.

Se você está gravando um álbum hoje eu dou risadas. Crie uma canção que prenda a minha atenção e deixe-me querendo mais. Estou falando de ser especial e não sobre valor. Estou falando de música e não de comércio."