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16 de jun. de 2009

Assoviando e chupando cana



Em um artigo presente aqui no blog, Beni Borja comentou que

A especialização do trabalho é um fato inescapável da vida econômica no nosso tempo. Quem faz arte, se puder, se ocupará só de criar. Quem gerencia os negócios que surgem à partir da arte, tenderá a se ocupar exclusivamente de fazer dinheiro com a criação dos outros.

Essa divisão de trabalho é um avanço da civilização, que não vai desaparecer só porque apareceu um novo modelo de negócios. Passado o momento de confusão, continuaremos tendo empresários e artistas.

Em O Culto do amador, que leio em pílulas, achei um trecho que complementa o que Beni disse acima:

No século XIX, essa divisão do trabalho não se refere apenas à decomposição de tarefas numa fábrica manufatureira ou numa linha de montagem. Ela inclui o trabalho daqueles que escolhem uma profissão ou campo, adquirem educação ou treinamento, ganham experiência e desenvolvem suas habilidades dentro de uma meritocracia complexa. Todos eles têm o mesmo objetivo: adquirir expertise.

Numa sessão famosa de
A ideologia alemã, Karl Marx tentou seduzir o leitor com um mundo pós-capitalista idílico onde todo mundo pode "caçar de manhã, pescar de tarde, criar gado ao entardecer e criticar após o jantar". Mas se todos nós podemos ser simultaneamente caçadores, pescadores, criadores de gado e críticos, pode algum de nós realmente sobressair em alguma coisa, seja na pesca, na criação de gado ou na crítica?

***
O que será que isso tem a ver com o estado atual do mundo da música?

9 de mai. de 2009

Wikipedia x O Culto do Amador



Andando por aí, descobri esse vídeo com um debate de 28/2/2008 entre Jimmy Wales (um dos criadores da Wikipedia) e Andrew Keen (autor de O Culto do Amador).

Quem esperava um Deathmatch, deu com os burros n'água. O debate é civilizadíssimo, divertido e muito esclarecedor sobre os pontos de vista de ambos. Em alguns momentos é difícil chegar a conclusões. Às vezes eles até concordam entre si. E o Andrew Keen tem um sotaque estranho...

Para mim, alguns dos highlights da crítica de Keen - descritos aqui toscamente - são:
  • A falta de contexto e curadoria das informações expostas na Wikipedia e na internet em geral. Por exemplo, o que é mais importante: Hamlet ou Pokemon? Depende do contexto. Sem isso, não há como inferir valor (ou então, gasta-se um tempo que quase ninguém mais tem). Jornais e a mídia tradicional, com todos os seus defeitos, contextualizam melhor a informação. Por exemplo, se você conhece a linha editorial do jornal e quem escreve um dado artigo, você já começa a formar um mapa mental. A falta de contexto é grave para quem não tem tempo, educação ou ceticismo (os "media illiterates"). No caso da Wikipedia, o anonimato dos autores aprofunda ainda mais esse problema.
  • Ele também sublinha a desvalorização do criador profissional e do especialista na web 2.0, que é um grande espelho. Sites como Youtube e Google são veículos criados para colocarmos nossos conteúdos, sem remuneração. O valor econômico é vender anúncios. Se a moeda hoje é a atenção, cada minuto que passamos num desses sites é um minuto a menos num NewYorkTimes.com ou somewhere else. "It's getting harder and harder to make a living as a creative professional".
Já Jimmy Wales, otimista, defende que estamos firmemente caminhando para uma economia e profissões baseadas em conhecimento. (Minha opinião: acho que nesse caso a palavra informação é mais adequada que conhecimento. É bem diferente.) Ele concorda com Keen na necessidade de valorizar os experts, os creative professionals. Mas não especifica como nesse novo modelo.

Alguns argumentos são, hoje, óbvios - a dificuldade de remuneração do conteúdo, por exemplo. Outros, mais polêmicos. Divirtam-se e tirem suas conclusões.

8 de mai. de 2009

Mais sobre O Culto do Amador

Recebi esse texto do Leonardo Morel que, além de músico, está fazendo sua tese de pós-graduação sobre os novos modos de se consumir música. Ele acabou de ler "O Culto do Amador" do Andrew Keen - já citado outras vezes aqui - e fez uma pequena análise do livro para nós.

O CULTO DO AMADOR

Em “O culto do amador” (Rio de Janeiro, editora Zahar, 2009), Andrew Keen defende que o modelo de democratização adotado pela internet nos dias de hoje, também conhecido como Web 2.0, contribui para a degradação da sociedade do século XXI. Segundo ele, a Web 2.0 daria poder de voz a indivíduos sem especialização, definidos por ele como “amadores”, e acarretaria o declínio de nichos mercadológicos como a indústria fonográfica e a imprensa especializada.

Na visão dele, plataformas como Myspace, Wikipédia e Youtube são responsáveis pela degradação de valores culturais e pela eliminação de postos de trabalho de profissionais e especialistas.


Em períodos de mudança é natural que algumas pessoas glorifiquem o passado, idealizando-o como parte de um território seguro onde não havia problemas e todos eram felizes. Atualmente encontramos frequentemente essa posição sendo defendida por indivíduos dos mais variados segmentos profissionais que enxergam esse momento de transição como a realização do caos.


Ora, o homem cria a tecnologia e essa transforma a sociedade, sempre foi assim. A busca pela inovação tecnológica faz parte da história humana e é inevitável que produtos e processos muitas vezes tornem-se obsoletos e simplesmente desapareçam com o tempo.


Numa perspectiva unilateral, o autor parece ignorar os benefícios que plataformas como Myspace, Youtube e Wikipédia geraram paras as pessoas, não conseguindo assim entender os motivos pelos quais tais iniciativas foram tão bem sucedidas nos dias de hoje.


Estamos vivendo num período marcado por inúmeras mudanças na sociedade causadas pelo impacto do processo de inovação tecnológica. A internet, creio eu, ainda necessita de diversos ajustes como uma regulamentação que seja formatada nos moldes atuais e que proporcione o equilíbrio entre os interesses tanto da sociedade quanto os corporativos.


Mesmo assim acho válida a leitura desse livro. Acredito que ele contribui para um debate que ainda está longe de acabar quando o assunto é internet e creio ser importante ouvir (ou ler) os diferentes pontos de vista.


Léo Morel
leonardomorel@gmail.com
http://www.myspace.com/leomorelrj

22 de abr. de 2009

Entrevista com o autor do de O Culto do Amador



Para quem ficou com a pulga atrás da orelha por conta do livro que ataca a cultura produzida pela web 2.0.
Vai em inglês mesmo por que a vida anda corrida. Uma provocação para as idéias muito rígidas - às vezes elas tendem a calcificar.

To say that writer/blogger Andrew Keen is a contrarian might be an understatement. In his latest book, The Cult of the Amateur: How Today’s Internet is Killing Our Culture Keen plays the devil’s advocate against the cultural tidal wave known as the Web 2.0. I’ve been following Keen’s Twitter posts and his blog The Great Seduction for awhile now. He has a knack for fostering interesting discussions about the publishing industry, whether you agree with him or not.

1. What is the premise for your book, The Cult of the Amateur? My premise is that user-generated-content on the Internet (Web 2.0) has no economic or aesthetic value. Rather than rewarding talent, it feeds on the narcissism of our current cultural climate. Cult is a subversion of the original Web 2.0 subversion; it is Adorno-for-idiots. I argue that rather than amusing-ourselves-to-death, we are now expressing-ourselves-to-death.

2. You refer to yourself as “the anti-Christ of Silicon Valley” yet you’re an avid user of social media. How do you explain this seeming dichotomy? My next book is a cultural analysis of social media. You can’t understand social media without participating in it. Besides, you can’t be a good evil “anti-christ” without indulging in a few unholy dichotomies of your own.

3. A recent blog post from you proclaims “Blogs are dead.” What’s next then? How can authors best promote their work online? What’s next is real-time media like Twitter and Friendfeed which will transform blogs from static textual websites into platforms for live interaction with one’s audience. Authors need to aggressively promote themselves in this real-time environment. It’s an ideal place for writers to show off their talent. Any writer not on Twitter should have both their hands chopped off. In the 21st century, the shy and the reticent will starve.

4. What’s next up for you? Is there another book project on the horizon? Yes, a book (maybe with an audio commentary and some videos too) about the broad cultural forces that have shaped the current social media revolution. Everyone always says this is the next big industrial revolution. I think that’s true. So the challenge is to explain how and why today’s digital revolution is both different and very similar to the industrial revolution of the mid 19th century.

5. In your opinion, what do traditionally published book authors most need to know about where the publishing industry is headed? It’s generally going down the toilet. It will be just as bloody, perhaps even more so, than the music and newspaper businesses. Problem is that most people in publishing fetishize the physical book. And—like the physical newspaper or the vinyl long-playing record—the analog book will become an increasingly marginal high-end product. Writers, then, have to become broadcasters and video stars if they are to remain viable. Words will matter in the future, but so will sounds and images. Ugly, mute writers, therefore, should probably switch careers. It’s gonna be very bloody (funny and awful).