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11 de fev. de 2011

A cor do gato



O amigo Beni Borja nos presenteia com mais um artigo:

***

“Quem gosta de arte é banqueiro , artista gosta é de dinheiro”.

A frase, cujo autor desconheço, é obviamente um absurdo, já que para fazer arte é antes preciso apreciá-la.

Mas ela chama atenção para uma verdade fundamental sobre a atividade artística. Fazer dinheiro com a sua obra é um problema permanente do artista.

Parece ter se perdido de vista, nessa discussão recente sobre o direito autoral, a razão essencial da existência dessa precária construção jurídica: garantir o equilíbrio nos negócios entre criadores e os consumidores da sua criação.

É importante lembrar que não foram os direitos autorais que “inventaram” o comércio da criação artística. Negócios entre criadores e consumidores acontecem desde muito antes de existirem leis sobre isso. Os direitos autorais são apenas a garantia que o Estado oferece para os negócios privados de comércio da criação. Só isso.

Quando compramos um cacho de banana na feira não pensamos sobre as implicações legais desse gesto, porque nesse ato comercial simples as partes normalmente ficam relativamente satisfeitas com o negócio. Com ênfase no “relativamente”, já que em negócios não há nunca satisfação total possível.

Mas se as bananas estiverem estragadas, ou se a virmos um cacho semelhante por metade do preço em outra banca da feira, subitamente nos recordaremos dos direitos dos consumidores e de outras garantias legais.

Quando um negócio entre particulares dá certo, quando as partes saem da negociação com a sensação de que fizeram o melhor negócio possível, ninguém se lembra de recorrer à Justiça.

A lei e a Justiça só aparecem quando o negócio deu errado, quando alguém se sente injustiçado. Lembro de outra frase, essa do governante reformista chinês Deng-Xiao-Ping - “Não importa a cor do gato, o que importa é que ele pegue o rato”. O que importa na prática para o artista não é o direito que ele tem sobre a sua obra, o que importa finalmente é o “din-din” que vai bater na sua conta.

Muitos atores nessa pantomima querem vesti-la como uma questão de princípios. Como se houvesse alguma divergência fundamental em relação ao poder do artista sobre a sua obra entre o campo dos “modernautas” do Creative Commons e os “reacionários” do velho direito do autor.

Papo furado. A questão central de toda essa discussão é mesmo o velho e bom vil metal.

Observo que enquanto a classe musical está em pé-de-guerra sobre uma reforma dos direitos autorais, criadores de outras formas de arte raramente se manifestam sobre o tema.

Ocorre que nós músicos e compositores, estávamos descansando na praia, justamente na hora em que o tsunami digital chegou arrastando tudo. Então é natural que sentindo nos nossos bolsos os seus efeitos devastadores, sejamos os primeiros a chiar. Mas em breve, escritores e cineastas juntarão suas vozes a essa gritaria.

Mas todo esse barulho serve para muito pouco, enquanto ninguém souber qual é o negócio possível entre os criadores e os consumidores de obras reproduzíveis.

O problema é que o negócio de vender a arte que pode ser reproduzida está em fluxo , vivendo uma transformação acelerada que vai nos levar a algum lugar ainda desconhecido.

Esse é o “X” da questão. Porque as leis são criadas para estabelecer a equidade entre as partes em modalidades de negócio que já existem na realidade do mundo.

Voltando à feira. A lei obriga o feirante a aferir sua balança porque se vendem coisas a peso nas feiras. O “dever ser” da lei só existe porque a prática do mercado já definiu seus parâmetros.

E no momento não há parâmetros no mundo digital, porque o negócio que existia está sendo desmontado , e o novo negócio ainda não apareceu. Portanto discutir novas leis nesse momento é antes de tudo intempestivo.

Por outro lado, temos que convir que não será tentando manter a qualquer custo um modelo de negócio que faz água por todos os lados, que vamos conseguir melhorar o saldo bancário dos criadores.

Um pouco mais de pragmatismo comercial e um pouco menos de idealismo jurídico fariam muito bem a essa discussão.

Se os detentores de direitos autorais forem mais receptivos a idéias novas sobre como fazer dinheiro com as suas obras, e os “geeks” forem mais receptivos a idéia de que criadores têm contas para pagar como todo mundo, podemos acelerar muito o inevitável processo de tentativa e erro que levará ao aparecimento de um novo modelo de negócios para a criação artística.

Resumindo : Tem muito direito e pouco negócio nessa discussão. Quem gera dinheiro, que é o que anda faltando no bolso dos criadores, são os negócios, não os direitos.

Saudações Musicais,
Beni

Crédito da imagem: Gustave Doré, ilustração e uma fábula de La Fontaine, c.1868

22 de fev. de 2010

Arte e tecnologia?



Beni Borja escreveu:

* * *

Em junho próximo acontecerá em Nova Iorque o leilão do acervo de obras de arte da Polaroid.

O acervo conta com obras de alguns dos mais renomados artistas plásticos americanos do século XX , como os fotógrafos Ansel Adams e Robert Mapplethorpe e pintores como Robert Rauschenberg e Andy Warhol , esse um viciado declarado em polaróides.

Como é que essas obras foram se constituir numa das propriedades mais valiosas da massa falida da Polaroid?

É uma história simples e que revela como arte e tecnologia se beneficiam mutuamente pela convivência próxima.

Edwin H. Land , o inventor do filme de revelação instantânea e fundador da Polaroid, além de ser um químico genial era um sujeito que pensava com a própria cabeça. Ele percebeu que o desenvolvimento da tecnologia da fotografia instantânea necessitava da colaboração de quem a usasse de forma criativa. Por isso deu de presente ao fotógrafo Ansel Adams um dos protótipos de sua primeira câmera de fotografia instantânea.

Os comentários de Adams sobre a máquina foram tão úteis, que Land o contratou como consultor . Instado por ele a Polaroid iniciou uma política de dar câmera e filmes para os artistas em troca de algumas fotos, que colecionadas ao longo dos anos , resultam no acervo que agora vai ser leiloado .

Meu filho Francisco de 8 anos descobriu os Beatles. Por conta disso, tenho sido forçado a ouvir compulsivamente a obra completa remasterizada lançada no ano passado.

Os Beatles continuam impressionando os ouvidos de hoje, não apenas pela genialidade musical , mas também porque suas gravações são um modelo de integração entre arte e tecnologia.

Nos estúdios de Abbey Road , onde os Beatles registraram a maior parte da sua obra , o grupo não encontrou apenas um local adequado para registros sonoros, mas uma cultura de inovação e criatividade em tecnologia.

Se os quatros cavalheiros de Liverpool criaram canções que desafiam o tempo, ouvindo outros discos gravados na mesma época em Abbey Road como ¨Piper at the Gates of Dawn¨ do Pink Floyd ou ¨Begin Here¨ do The Zombies , se verifica que a inovação sonora dos Beatles não foi exceção , mas era a regra nos estúdios da EMI.

Os plug-ins do meu Pro-Tools , cheios de imitações de efeitos criados na época ,atestam o poder da interação entre artistas criativos e engenheiros curiosos.

Hoje , zonzo diante de tantas inovações tecnológicas, me pergunto:

Onde e quando será agora esse encontro entre arte e tecnologia?

Saudações musicais,
Beni

Crédito da foto: Ron Galella

13 de nov. de 2009

O melhor e o pior das listas



Mais um petardo do nosso amigo Beni Borja.

* * *

Em outros tempos, quando eu raramente usava dinheiro de plástico, meus recibos de compras em cartão de crédito saiam da minha carteira para serem arquivados. Em algum momento os papeizinhos seriam analisados, e serviriam para controlar meus gastos e conferir a cobrança das despesas do cartão.

Hoje , até camelô aceita cartão. E os recibos se avolumam de tal forma na minha carteira , que regularmente sou obrigado a dar a eles um destino. Então ,depois de alguns instantes de culpa, as dezenas de recibos que juntei são inapelavelmente remetidos para a lata de lixo.

A culpa pela eliminação das provas do meu descontrole financeiro, é sempre ultrapassada pelo simples reconhecimento que eu jamais terei tempo de arquivar e conferir todos aqueles recibos.

Toda informação é inútil se não for arquivada e processada. Manter arquivos é uma coisa que dá um trabalho medonho, processar as informações contidas neles o grande sorvedouro de tempo que esgota as nossas vidas.

O desenvolvimento dos métodos de classificação é a grande invenção ignorada da humanidade. Foi a capacidade de organizar o conhecimento em categorias e índices, que possibilitou a humanidade acumular informações muito além da memória individual de qualquer um.

Por isso, compreendo perfeitamente essa psicose por listas que nos aflige nos últimos tempos. Fazer uma lista é o primeiro passo de qualquer processo de classificação.

Ter toda a música gravada do mundo disponível para consumo imediato a qualquer instante, exige de nós, amantes da música, uma completa reorganização de nossos sistemas de classificação, uma tarefa hercúlea, para a qual a mídia pretende colaborar elaborando listas.

Os mil discos que você precisa ouvir antes de morrer, as cem melhores músicas de todos os tempos, os dez lançamentos obrigatórios do ano, essas e uma infinidade de outras, são tentativas de nos ajudar a navegar o mar de música que subitamente entrou nas nossas possibilidades de audição.

O problema é que esse bem intencionado esforço classificatório esbarra na natureza da obra de arte.

Podemos afirmar que o Usain Bolt é o melhor corredor de cem metros do mundo, porque ele correu mais rápido que os melhores do mundo nessa modalidade. O critério de comparação é simples e objetivo, quem faz o percurso no menor tempo é o melhor.

Arte não é esporte. Não existe o melhor guitarrista, o pior disco, o melhor show ou o pior cantor. Não há melhor ou o pior, simplesmente porque não há como comparar.

A única maneira de comparar coisas diferentes é pela função. Podemos fazer uma lista das melhores pastas de dente porque, embora sejam diferentes entre si, elas servem ao mesmo propósito: limpar os dentes. Então, as que limparem mais os dentes serão as melhores.

Criações artísticas não vêm com instruções de uso como pastas de dente, porque elas servem funções diferentes, para diferentes consumidores. Essa é a natureza da brincadeira. É o que faz produzir qualquer forma de arte uma aventura no desconhecido.

Se algum produto cultural, por mais tosco que seja, encontra um público, é porque algum valor o consumidor viu nele. Um valor que muitas vezes o próprio criador desconhecia. Música serve para muitas coisas para pessoas diferentes.

Há muita música feita para finalidades específicas: música para dançar, para louvar a Deus, para andar atrás de trio elétrico , para relaxar, etc e tal. Mas nada impede o ouvinte de apreciar uma música feita para uma situação, em outra, completamente diferente daquela para qual foi originalmente criada.



Conta a lenda que as variações Goldberg foram compostas por Bach para fazer dormir um conde que sofria de uma insônia terrível. Isso não impediu o pianista Glenn Gould de transformar sua interpretação das variações num dos grandes sucessos da história da música de concerto.

Por mais que irrite os criadores (e como irrita!), é a crítica que tem o papel de classificar música.

Essa classificação não é um processo instantâneo e definitivo, como as listas querem fazer acreditar. Pelo contrário, é lento e tortuoso o caminho que leva qualquer música a se tornar um clássico.

Só o tempo,muito tempo, determina o que fica e o que vai ser esquecido. Querer adiantar a história e inventar o clássico, antes que o tempo faça o seu trabalho de depuração, é pura perda de tempo.

19 de jun. de 2009

O futuro a Deus pertence, o passado está escrito - 2



A continuação do texto do Beni.

***
A PRS (Performing Rights Society) não é sigla que costume frequentar manchetes de lugar nenhum.

Faz umas semanas , foi notícia em diversos pontos da blogosfera o acordo que a PRS celebrou com os sites ingleses, para redução de 60% do valor cobrado pelo streaming de música. É um poderoso sinal dos tempos que o “Ecad do Reino Unido” assuma um papel de protagonista nas negociações que viabilizam o rádio do futuro.

Nessa altura do campeonato já se pode dizer que os serviços de streaming (Sonora, Uol, Last Fm, Imeen, Pandora, Spotify etc...) terão um papel fundamental na divulgação de música nos próximos anos. As negociações desses novos serviços com as velhas sociedades de arrecadação de direitos de execução pública , tem um papel central na sobrevivência dessas empresas.

Quem diria que uma instituição que nasceu de um insignificante caso policial de 162 anos atrás teria ,em pleno século XXI , esse papel relevante em definir o nosso futuro.



Em Paris, no ano da graça de 1847 , o compositor Ernest Bourget foi tomar "umas" no Café-Concerto Ambassadeur com um colega. Enquanto estavam lá a orquestra tocou diversas canções de Bourget, muito populares na ocasião.

Quando chegou a conta , que não era nenhuma grande despesa , Bourget virou pro garçom e simplesmente disse que não ia pagar. Ele argumentou que suas músicas estavam sendo executadas lá e ele não estava ganhando nada por isso , portanto não via razão para pagar quem estava usando o que era dele sem lhe dar nada em troca.

Fez-se a confusão, chamaram o gerente , mas Bourget ficou irredutível. Não ia pagar e pronto. Chamaram a polícia, foi aberto um inquérito, e no final de um longo processo o juiz decidiu que Bourget tinha razão. A casa não poderia mesmo executar a música dele sem sua autorização. Além dele não pagar a conta , o compositor ainda faturou uns caraminguás que o juiz mandou o café-concerto pagar como indenização.

Assim, uma decisão judicial sobre um caso de valor ínfimo estabeleceu o direito do compositor de cobrar pela execução pública da sua música , antes de quaisquer uma das muitas leis que viriam a regular os direitos do autor.

Esse episódio inspirou Bourget a fundar em 1851, junto com alguns colegas e o seu editor, a SACEM, a primeira sociedade de compositores na França , que se encarrega desde então de cobrar os direitos dos compositores e dos intérpretes pelo uso público das suas obras .

O modelo francês de uma sociedade de compositores sem fins lucrativos, foi a inspiração para a criação de instituições semelhante pelo mundo todo, que cobram em nome dos autores e intérpretes de quem toca sua música.

Eu ,que recebo faz décadas minha merreca do Ecad, nunca podia imaginar que devia aquele dinheirinho a uns goles a mais que um compositor francês tomou em meados do século XIX.

Saudações musicais,

Beni

17 de jun. de 2009

O futuro a Deus pertence, o passado está escrito - 1



Texto do Beni Borja.

***

Visões apocalípticas nos assaltam por todo lado. O produto físico acabou. A música gravada será gratuita. Os publicitários vão tomar conta do negócio e todos faremos jingles. Morreremos todos de fome. Parece interminável a lista de desgraças previstas para o nosso destino de fazedores de música.

Prever o futuro é esporte de alto risco, do qual já me aposentei.

O certo é que estamos perdendo a locomotiva do negócio da música como conhecíamos. Mas o trem é longo, e essa não será a primeira vez que trocamos de locomotiva. Uma visita aos 250 anos de história que precederam as nossas incertezas de hoje, talvez possa nos acalmar um pouco.

Duzentos e cinquenta anos!?! É isso mesmo que voce leu. O negócio da música começou a tomar a forma empresarial que ele tem hoje em meados do século XVIII, quando as primeiras editoras de música foram fundadas.

As editoras são as empresas mais antigas do negócio da música. Se chamam editoras porque originalmente o seu negócio era publicar partituras. Algumas dessas empresas ,com mais de duzentos anos, como a italiana Ricordi e a inglesa Boose & Hawkes , continuam publicando partituras até hoje.

No final do século XIX , para ouvir música era preciso que alguém a tocasse. As partituras eram então a locomotiva da música.
Para um compositor dessa época, ter sua música publicada por uma grande editora era como para um artista de anteontem ter seu disco lançado por uma grande gravadora, era o caminho inevitável para alcançar o sucesso comercial.

No início do século passado, em poucos anos, a música gravada substituiu as partituras como propulsora do negócio da música. Quando o público inevitávelmente passou a preferir ouvir Enrico Caruso do que o tenor desafinado da esquina , uma paisagem desconhecida tomou o horizonte da música.

Então apareceram os inevitáveis cavaleiros do apocalipse. Quem vai escrever música, sem editoras para lançá-las ? Quem vai fabricar instrumentos se só músicos profissionais vão tocá-los? Quem vai pagar as nossas contas??

A crise veio e muitas editoras fecharam ou foram compradas por outras. Mas com o passar dos anos muitas sobreviveram, porque usaram o relacionamento que tinham com os compositores para se tornarem suas representantes nas relações que eles precisaram estabelecer com as novas gravadoras e os intérpretes das suas obras.

As editoras, desde então, são as representantes dos autores na exploração comercial das suas obras. Esse papel de representante (muitas vezes feito de forma lesiva aos interesses econômicos do autor, mas isso é conversa que não cabe aqui) garante as editoras um lugar destacado no empurra-empurra de rearrumação que estamos vivendo entre os principais atores no negócio da música.

Ou seja, muita calma nessa hora , porque o futuro a Deus pertence.

Saudações musicais,

Beni

16 de jun. de 2009

Assoviando e chupando cana



Em um artigo presente aqui no blog, Beni Borja comentou que

A especialização do trabalho é um fato inescapável da vida econômica no nosso tempo. Quem faz arte, se puder, se ocupará só de criar. Quem gerencia os negócios que surgem à partir da arte, tenderá a se ocupar exclusivamente de fazer dinheiro com a criação dos outros.

Essa divisão de trabalho é um avanço da civilização, que não vai desaparecer só porque apareceu um novo modelo de negócios. Passado o momento de confusão, continuaremos tendo empresários e artistas.

Em O Culto do amador, que leio em pílulas, achei um trecho que complementa o que Beni disse acima:

No século XIX, essa divisão do trabalho não se refere apenas à decomposição de tarefas numa fábrica manufatureira ou numa linha de montagem. Ela inclui o trabalho daqueles que escolhem uma profissão ou campo, adquirem educação ou treinamento, ganham experiência e desenvolvem suas habilidades dentro de uma meritocracia complexa. Todos eles têm o mesmo objetivo: adquirir expertise.

Numa sessão famosa de
A ideologia alemã, Karl Marx tentou seduzir o leitor com um mundo pós-capitalista idílico onde todo mundo pode "caçar de manhã, pescar de tarde, criar gado ao entardecer e criticar após o jantar". Mas se todos nós podemos ser simultaneamente caçadores, pescadores, criadores de gado e críticos, pode algum de nós realmente sobressair em alguma coisa, seja na pesca, na criação de gado ou na crítica?

***
O que será que isso tem a ver com o estado atual do mundo da música?

16 de mai. de 2009

De quem é o disco?


Texto novo do Beni Borja:

Para escrever um livro só é preciso lápis e papel. Autores de livros não precisam de editoras para escrever suas obras.

Só para fabricar e vender o livro é que o autor precisa de uma editora. Por isso o
escritor é o único proprietário da sua obra.

Para fazer um disco, um artista de música necessitava de um estúdio com
equipamentos caríssimos.

Essa dependência de uma tecnologia inacessível determinou que as gravadoras
pudessem exigir a propriedade da música gravada, pagando ao artista um percentual das vendas. A mesma lógica que se aplicou ao cinema.

Esse era o negócio da música gravada: A gravadora é dona da gravação porque ela
banca os elevados custos de produção.

Com o advento da gravação digital essa lógica ficou obsoleta. Hoje, teoricamente
, qualquer um pode produzir um disco em casa.

Então, a única razão que justificava um artista ceder a propriedade da sua obra em
disco para uma gravadora, era o fato de que só ela podia lhe dar acesso aos grandes meios de divulgação. Só com o apoio de uma grande gravadora se poderia fazer sucesso de massa.

O monopólio do sucesso popular que as gravadoras detinham já era. Os sucessos
populares de hoje no Brasil, as duplas de sertanejo universitário, as cantoras de axé, os Mcs de funk, as bandas de forró e calipso, todos se criaram à margem do sistema de divulgação das gravadoras.

Alguns optam pelo conforto de serem contratados por uma gravadora, já que discos
são apenas uma parte quase ínfima do seu faturamento, outros constroem modelos de negócio totalmente independentes. Mas nenhum deles depende da gravadora para nada.

Essa nova correlação de forças exige uma nova mentalidade tanto de artistas quanto
de gravadoras , e mudar a cabeça é o mais difícil.

A indústria do livro todo dia nos dá prova que é possível ganhar dinheiro sem que a
empresa seja proprietária das obras que distribui.

Então, as gravadoras estão esperando o que?

6 de mai. de 2009

Será a ponta do iceberg musical?


Parece que estamos começando a descobrir outros artistas que estão obtendo algum resultado com táticas alternativas de divulgação e distribuição de música. O Roger do Ultraje vai escrever um texto sobre o que eles andam fazendo no ReverbNation – que ele está adorando -, quero um depoimento do Teatro Mágico – que faz muito show, onde aproveita para vender muito CD, tem um super esquema de merchandising e dá músicas na internet - e, por indicação do Beni, vou procurar saber mais sobre o Móveis Coloniais de Acaju.

Alguém tem mais alguma dica?

Não precisa ser um estouro, mas tem que ser alguma ideia diferente que ajude a manter e esquentar a carreira da banda ou do artista.

Só quero saber se esses casos são a ponta do iceberg ou honrosas exceções.

17 de abr. de 2009

Outro jogo


Recebemos o texto abaixo do Beni Borja, pensador da música e amigo do blog. Ao relacionar o momento atual com o processo revolucionário histórico, propõe boas reflexões. O título é um jogo com outro texto dele postado aqui.

* * *

Morreu o rei. Viva o rei!

Normalmente quando um rei morre, o povo já conhece o seu sucessor. Não há nenhuma confusão, nenhuma inquietação. O povo dá quinze minutos de atenção ao novo rei, e segue sua vida sem maiores sobressaltos.

Numa revolução, ninguém substitui imediatamente o rei destronado . Há sempre um momento de vazio de poder. Ninguém sabe quem manda , ninguém sabe a quem recorrer. Durante essa transição vive-se numa total incerteza sobre o futuro. Uma situação muito estressante, mesmo para não quer mandar em ninguém.

Nesse momento de confusão, os revolucionários proclamam que o poder acabou, que agora viveremos como cidadãos livres, independentes do poder dos outros. O povo se agita , cada um toma um partido, mas inevitávelmente o poder se reorganiza. E por fim um novo mandatário tomará o lugar do antigo.

Essa pequena lição básica de ciencia política pode ter alguma serventia , num momento como o atual.

Estamos vivendo tempos revolucionários no negócio da música.

Os reis (gravadoras) foram destronados. Antes elas tinham o poder de decidir quem ia ser popular e quem ia ficar tocando para as paredes. Não mais. No vácuo do poder, os revolucionários ( os "geeks" da vida) proclamam que viveremos todos felizes para sempre, sem poderosos. Cada um por si, numa família feliz.
Não creio.

Nessa altura do campeonato , imaginar que cada um de nós ,criadores de música ,vai se relacionar diretamente com seus fãs ,sem nenhuma intermediação corporativa, me parece uma visão de um inferno medieval. Para quem se preparou a vida toda para fazer música, ficar administrando "amigos" nos myspaces e orkuts da vida, parece uma condenação a um purgatório infinito.

Músicos querem fazer música, não querem administrar negócios.

A especialização do trabalho é um fato inescapável da vida econômica no nosso tempo. Quem faz arte ,se puder, se ocupará só de criar. Quem gerencia os negócios que surgem à partir da arte , tenderá a se ocupar exclusivamente de fazer dinheiro com a criação dos outros. Essa divisão de trabalho é um avanço da civilização, que não vai desaparecer só porque apareceu um novo modelo de negócios. Passado o momento de confusão , continuaremos tendo empresários e artistas.

Rezo e torço para que tenhamos no futuro um sistema de comercialização de música melhor do que aquele do qual ,sem nenhuma tristeza, agora nos despedimos . Um sistema mais inclusivo, mais respeitoso, que entenda os prazos e os compromissos da arte. Não sei o que o futuro nos reserva. Mas não é difícil enxergar que o poder está migrando dos detentores de música gravada para os promotores de música ao vivo.

Se o dinheiro está na música ao vivo , é de lá que devem sair os futuros poderosos fazedores de sucesso, que inevitávelmente surgirão.

Saudações musicais ,
Beni

26 de mar. de 2009

Recebido por e-mail - Fim de Jogo

Recebi do Beni Borja, meu parceiro - e um pensador da música há tempos -, esse e-mail que repasso para vocês:

"Caríssimos, alguns meses atrás, eu contribuí para a superlotação das suas caixas postais com um email onde eu saudava a contratação pela EMI do Douglas Merrill da Google, para a vice-presidência da gravadora inglesa.

Ontem o novo chefão da EMI, um executivo italiano que fez carreira vendendo produtos de limpeza, anunciou a demissão do sujeito, depois de menos de um ano de casa.


Na ocasião, me pareceu que a contratação de um ex-Google pela menor das "majors", era um sinal de que finalmente elas se renderiam ao inevitável. Quis acreditar que, finalmente, a indústria fonográfia começaria a se mover na direção de um novo modelo de negócio adequado à realidade da vida digital.

Puro otimismo da minha parte.


No último ano ficou cada vez mais claro que isso não vai acontecer. A estratégia das grandes é cada vez mais se concentrar no que ainda resta de mercado para produtos físicos (CDs), ao mesmo tempo em que, sem nenhuma competência, tentam ingressar no mercado de shows. Ou seja, caminham a passos largos para a irrelevância.


Só as grandes gravadoras tinham o poder de tentar fazer uma transição relativamente ordenada para um novo mercado de música digital. Talvez elas não tivessem na prática esse poder, talvez lhes tenha faltado a coragem de dar um salto no escuro, mas o certo é que o momento onde a sobrevivência era possível já passou. Agora resta apenas uma lenta morte por inanição.


Lamento este fim melancólico. Não porque eu tivesse algum apreço especial pelo antigo modelo, mas porque o desmonte da indústria como conhecemos deixa uma grande lacuna para o público consumidor de música.

Por incrível que hoje isso possa parecer , as gravadoras em outros tempos já prestaram um relevante serviço para a música. O serviço que em outras artes se chama curadoria. Era nos departamentos artísticos de gravadoras que se fazia curadoria de música popular.
Mais do que o compromisso de investimento de uma empresa, assinar contrato com uma gravadora significava para um artista novo a aprovação do seu trabalho por alguém que entendia do mercado de música. O contrato com a gravadora abria as portas da mídia , mobilizava os empresários, era uma senha para ser levado à sério.

Com a democratização da gravação digital, mais do que nunca artistas precisam da validação de um curador para se destacar do meio da multidão de uma produção desenfreada.
Hoje temos blogs, redes sociais , serviços de "streaming", uma série infindável e crescente de meios de ouvir música, mas a questão é :

Quem vai dizer ao público o que merece ser ouvido?


saudações musicais,
Beni"

Acho que, além de agradecer ao Beni por utilizar seu tempo pensando e escrevendo sobre um assunto tão importante para todos nós que amamos música, algumas coisas merecem ser acrescentadas:

1) que as gravadoras realmente estão perdidas - como todo mundo -, mas são conservadoras porque ainda têm algo a perder. Embora, cada vez menos;

2) que o tal do Douglas Merril não apresentou nada de novo nesse tempo todo e tinha um salário de jogador do Barcelona antes da crise;

3) que as gravadoras, pelo menos no Brasil, estão de olho é no mercado de celulares e não nos shows, mas eu acho que cobrar - mesmo nesse mundo mais controlado - vai ser cada vez mais difícil;

4) que a tal curadoria é realmente a maior mudança que estamos enfrentando em termos de impacto junto ao público. Os filtros ainda são muito incipientes e são muitos. Atingir o grande público vai ser uma coisa cada vez mais difícil. O negócio é conseguir um público fiel e trabalhar para ele, por menor que seja;

5) que eu queria ouvir vocês e começar um diálogo com o Beni