19 de mai de 2009

Aldus Manutius e a música hoje


O software do New York Times mostrado pelo Leoni aqui embaixo parece sensacional, não? Torço para que a coisa dê certo.

O mercado editorial, em especial o jornalístico, é a bola da vez a passar pelo cataclisma que acometeu a indústria do disco. O New York Times está em situação quase desesperadora e se aguenta até 2011. Deu n'O Globo de hoje que a revista Newsweek passou por uma reformulação, oferecendo mais conteúdo, a um preço maior, mas mirando um público mais exclusivo.

O curioso é que, desde os anos 90, os jornais já sabiam que essas mudanças viriam e pensaram em mais de uma estratégia para se adaptar, sem sucesso. Uma delas era conteúdo free, baseado em anúncios. Como se vê, nem de longe compensou a queda das vendas e de anúncios da versão impressa.

Talvez um dos grandes erros deles tenha sido a suposição de que o "velho" necessariamente se adapte ao "novo". Muitas vezes não é o que acontece. As revoluções, antes de se estabilizarem, antes que uma nova ordem se estabeleça, passam por períodos de transição caóticos, confusos.

Assim foi com a invenção do tipo móvel. Uma ordem cultural inteira foi varrida do mapa, criando um estado de insegurança enorme, mas estabilizado décadas depois: o fim do poder da Igreja sobre a cultura, a ascenção das línguas vernaculares em detrimento do latim, a alfabetização, o fim de muitas certezas. É assim com revoluções: o antigo é destruído antes que o novo seja criado. Só com Aldus Manuntius (quem é designer, conhece), é que o livro passou para o formato e proporções próximas às de hoje, se tornou portátil, caiu de preço e foi popularizado.

Isso me faz pensar que o impensável às vezes pode acontecer. Tomorrow never knows. As tais cadeias produtivas podem sofrer mais mutações do que possamos imaginar. E mesmo que tenhamos uma enorme afeição pelo jornal do café da manhã (eu, ao menos, tenho), ele não é sinônimo de notícia, por mais que os vejamos como uma coisa só. E, no fim das contas, notícia de qualidade é o que realmente importa.

Vocês não acham que isso tem alguma coisa a ver com a indústria da música?

PS: O texto acima foi inspirado pela leitura deste aqui.

16 comentários:

  1. Ih ...marcelo, agora vc. pegou o polemista-residente de jeito. Tão bem pensado e escrito que não tem como discordar de nada, só aprender.

    Só acrescentaria um outro pensamento.

    Mídias não morrem , elas procuram a sua especificidade. A oratória ,a grande mídia da Idade Média, continua viva e relevante , como ficou provado na ascenção política fulminante do Obama.

    Provávelmente o jornal de papel não será no futuro o formato principal de apresentação do jornalismo. Mas nem por isso o jornalismo vai desaparecer ,como forma de contar as histórias do que acontece no dia-a-dia do mundo.

    A confusão se estabelece porque mudanças de hábitos são um processo lento e insidioso. Só depois muito tempo que fazemos alguma coisa ,é que nos damos conta que temos um hábito e o cultivamos.

    Na música estamos no momento no olho do furacão da mudança.A portabilidade afetou os hábitos de consumo de música de bilhões de pessoas, que na verdade ainda não se deram conta de que tem novos hábitos e portanto não podem cultivá-los.

    ResponderExcluir
  2. A música realmente se democratizou, tanto na produção quanto na distribuição. O MP3, ou outros formatos portáteis que apareçam, não são tão maravilhosos quanto o antido modelo analógico, assim como os livros atuais não chegam aos pés dos livros escritos à mão com iluminuras. Mas chegam para muito mais gente.
    Isso não quer dizer que o livro de arte não exista mais. Só que custa muito mais caro e é para poucos.
    Será que teremos a mesma coisa na música: mp3 para a massa e pacotes especiais para os aficionados?

    Outra pergunta: e as rádios? Como vão se virar num futuro próximo?

    ResponderExcluir
  3. Em relação às rádios, a tendência é uma simbiose cada vez maior com a internet. Uma vertente forte, tanto nas AM quanto nas FM, é o bate-papo com participação dos ouvintes, que tem aumentado. A internet ajuda essa propagação. É lá que também as rádios fazem experiências. Um case: Globo FM, com características de sempre, hoje só existe na internet, mantendo o FM apenas no nome. Lá você encontra o programa típico de rádio, ao vivo, e também especiais pré-gravados e notícias.

    Webrádios ainda têm a vantagem de não passar a Hora do Brasil e transmitir para o mundo todo.

    ResponderExcluir
  4. O novo Homem não somos nós, ou.... Nós não pertencemos a esse grupo. Por isso sabemos tanto sobre o que vai deixar de existir e pouquíssimo sobre o que provavelmente venha a acontecer. É claro que as estimativas e os estudos sobre outros movimentos nos ajudam, mas a verdade é que pertencemos à metade de cá e o mesmo embasamento que nos guia a responder esses questionamentos, também nos cega por excesso de bagagem. Exatamente o que dá agilidade aos que estão chegando agora.
    Meu palpite é o da MP3 para a superfície e as expeciarias para os aficionados.
    A discussão está agradável de qualquer maneira

    ResponderExcluir
  5. Como diria meu amigo Dodô, somos pessoas do século passado, não é, Humberto?

    ResponderExcluir
  6. Pior, mais radical, somos do milênio passado!!

    ResponderExcluir
  7. Mas, se tudo escorrer bem, estamos no início do segundo tempo. Ainda dá pra se divertir bastante!

    ResponderExcluir
  8. Gente, alguém leu a entrevista do Ray kurzweil na Rolling stone? É esse mesmo Humberto, o que inventou o teclado. Ele prevê que até 2045 os computadores irão nos ultrapassar em inteligência, o universo se tornará consciente e os humanos viverão para sempre!!! Se ele acertar, o segundo tempo irá ser eterno, haha!!!

    ResponderExcluir
  9. Inventou o teclado que leva o nome dele, não me expressei bem.

    ResponderExcluir
  10. Se os humanos viverem para sempre, então serão pós-humanos, pois o sentido de tudo o que fazemos, os valores, a relação com os outros humanos, tem relação direta com a morte. Um acontecimento desses, que provavelmente apenas uma minoria ínfima da humanidade teria acesso, é chamada por aí de a singularidade. Xiii, isso é conversa que não acaba mais.

    ResponderExcluir
  11. Isso seria uma condenação Aureo, acredite em mim. Imagine eu querendo manter minhas experiências artísticas intactas ao máximo, e brigando por isso com dois mil anos de experiência em discutir............... Imagine o que seus tataranetos iriam achar disso.

    ResponderExcluir
  12. Uau!!!! Música Líquida também é filosofia e transcendência!!! Eu não quero viver para sempre e ponto final. Pontos finais são importantes.

    Se ninguém morre e continua a nascer gente o planeta vai transbordar. Imagina como vai ser andar em Copacabana...

    Que a vida seja eterna enquanto dure.

    ResponderExcluir
  13. A ideia de uma vida eterna me lembra a tristeza dos vampiros. (Embora todos nós queiramos viver muito e com qualidade.)

    Voltando ao Kurzweil, achei na Wikipedia um pouco das previsões dele. Ele se baseia na aceleração exponencial dos avanços tecnológicos, num tempo cada vez mais comprimido. Vejam esse trecho. É perturbador e não livre de muita polêmica, claro. Atenção, não é ficção, o cara se leva a sério:

    2045: The singularity- $1000 buys a computer a billion times more intelligent than every human combined. This means that average and even low-end computers are hugely smarter than even highly intelligent, unenhanced humans.

    - The Singularity occurs as artificial intelligences surpass human beings as the samrtest and most capable life forms on the Earth. Technological developement is taken over by the machines, who can think, act and communicate so quickly that normal humans cannot even comprehend what is going on; thus, the machines, acting in concert with those humans who have evolved into humanoid androids, achieve effective world domination. The machines enter into a "runaway reaction" of self-improvement cycles, with each new generation of A.I. appearing faster and faster. From this point onwards, techno;ogical advancement is explosive, under the control of the machines, and thus cannot be accurately predicted.

    - The Singularity is an extremely disruptive, world-altering event that forever changes the course of human history. The extermination of humanity by violent machines is unlikely (though not impossible) because sharp distinctions between man and machine will no longer exist thanks to the existence of cybernectically enhanced humans and upploaded humans.

    ResponderExcluir
  14. O musicalíquida transbordou, ops transcendeu!


    Putz... respirei fundo. Eu não gosto muito do Sr. Kurzweil, queria saber muito a opiniao do Sr. Yamaha e do Sr. Nord Lead sobre tudo isso!

    Em breve deixo os meus comentários.

    ResponderExcluir
  15. Leoni, já existem milhares de pessoas vítimas do materialismo que estão simplesmente negando a reprodução, a base essencial de toda a vida, toda a história e o motivo primordial de estarmos aqui.

    Não me surpreendo em nada com seres humanos. O Egocentrismo está chegando no seu apogeu. Humanos negando a procriação por vontade própria, por comodismo!

    Eu acho que precisamos urgentemente voltar ao assunto música, senão não vamos mais dormir rsrsrsrs

    ResponderExcluir