12 de dez de 2010

Projeto Estrombo: música e indústria criativa

Uma notícia auspiciosa.

Em 8 de dezembro foi lançado no Rio o projeto Estrombo, que tem como objetivos principais "capacitar, formalizar e apoiar, ao longo de três anos, pessoas e empreendimentos do ramo musical para atuarem em novos modelos de negócios e novos canais de distribuição baseados na internet e nas novas tecnologias – como, por exemplo, ambientes de grande potencial econômico como os aplicativos para redes sociais e celulares e a integração de música com os games."

Saiba mais no site e no vídeo abaixo.



16 de set de 2010

Mostra Ampla de Cultura, Tecnologia e Inovação

Dentre as interessantíssimas palestras, destaco uma que nos interessa mais. Mo dia 29 de setembro, às 11:00h, Nelson Motta vai falar sobre o futuro da indústria fonográfica e as novas formas de se consumir e vender música.

Foi num texto do Nelsinho que vi pela primeira vez uma citação do David Bowie prevendo que a música ainda seria consumida como água.

31 de ago de 2010

URGENTE!! Você pagaria R$ 3,00 para baixar qualquer música oficialmente?

Hoje termina o prazo da consulta pública em relação à reforma dos direitos autorais e não havia, até agora, nenhuma proposta concreta para legalização dos P2P, Torrents etc. Nem como remunerar os criadores na internet. Houve muita discussão e nenhum consenso. E não podemos perder essa chance de por ordem na nossa casa virtual. E estou falando tanto para criadores quanto para consumidores – que para a legislação atual são criminosos quando baixam músicas gratuitamente.

Essa é a proposta da USP – G-Popai: para ter acesso à banda larga cada usuário pagaria R$ 3,00 para ter o direito de baixar qualquer música para uso não comercial. É o blanket license ao qual já nos referimos aqui em outros posts. A música feito água.

Muita gente tem críticas ao texto da petição. Tem gente que acha que não se deve determinar um preço de antemão. Concordo. Tem gente que preferia que a proposta incluísse como seria feita a distribuição. Concordo também. Há diversas imperfeições, diversos detalhes que podem ser melhorados, mas o prazo não vai nos permitir.

Então, aconselho todo mundo a assinar a petição e convocar os amigos para fazê-lo. Depois, durante o processo de redação da lei poderemos aperfeiçoar os detalhes que ficaram pendentes. O mais importante é dizer que fã não é pirata e que, dadas as condições, está disposto a contribuir com os criadores. Não pagando caro por arquivos digitais ruins e protegidos, mas que entende a necessidade de remuneração dos profissionais envolvidos no negócio da música.

Faço uma convocação de última hora. Assinem a petição e espalhem a notícia, arregimentem os amigos e os amigos dos amigos.

Aqui está o link para a assinatura:
http://www.gpopai.usp.br/boletim/compartilhamento/article/peticao-compartilhamento-legal

27 de jul de 2010

Revisitando Indaba, o estúdio das nuvens

Vejo na Revista Digital d'O Globo desta semana um artigo sobre o site Indaba Music, onde você pode compor e mixar músicas online, em grupo. Eu já havia escrito aqui sobre o Indaba há mais de um ano e fico feliz em ver o site vingando, pois é mesmo sensacional.

Na época em que escrevi sobre o Indaba, me cadastrei e publiquei no site uma faixa de viola caipira que cometi. Pouco tempo depois, o norte-americano Mathew Moss acrescentou à viola uma linha de baixo fretless. O resultado ("auditionviola10menor.wav ") vocês podem conferir aqui.

Abaixo, o artigo de O Globo:

***

Jam sessions via ciberespaço
Pedro Giglio

Quantos jovens — de todas as idades — já pensaram em formar uma banda? Seja na garagem ou no estúdio, reunir a galera para levar um som é uma atividade bem divertida...

O problema é que, vez por outra, existem obstáculos.

Formar uma banda completa, conciliar o tempo livre dos integrantes... Ainda bem que existe uma alternativa para os músicos conectados à internet: o Indaba Music .

Lançado em fevereiro de 2007, o Indaba — o nome vem do zulu, significando “fórum colaborativo”, como os realizados pelos chefes tribais para resolver problemas em comum — permite que músicos do mundo componham e colaborem à distância. É possível compartilhar as faixas isoladas de cada instrumento, que ficam à disposição dos colaboradores e visitantes, formando sessões virtuais em potencial.

O site está bombando: tem mais de 500 mil usuários registrados em aproximadamente 200 países.

— Os equipamentos de gravação ficaram tão baratos que músicos já podem gravar canções de qualidade profissional. Pareceu uma evolução natural tornar esta experiência online e permitir colaboração remota — diz Dan Zaccagnino, um dos fundadores.

São muitas as histórias de sucesso do site. Músicos impossibilitados de saírem de seus lares trabalham com outros, bem distantes, e alguns colaboraram com artistas como Yo-Yo Ma, Peter Gabriel, Weezer e Snoop Dogg. Formada no Indaba, a banda inglesa Felsite conseguiu até um contrato para um álbum independente.

Já a banda Marcy Playground lançou um concurso de remix para a canção “Emperor” — no qual um brasileiro se saiu bem. O analista de sistemas Bruno Linhares teve sua contribuição reconhecida nas menções honrosas do júri e do líder da banda, John Wozniak.

— Apesar do aspecto competitivo, todos se ajudavam dando dicas do que melhorar nos mixes — diz Bruno.

Mas é cedo para decretar o fim das “jam sessions” ao vivo, segundo Dan.

— A colaboração online nunca substituirá estar na mesma sala que outro músico, mas pode abrir possibilidades que não existiriam de outra forma, e isto pode ser muito libertador para um aspirante a músico.

23 de mai de 2010

Artistas, gravadoras e marcas



Deu em O Globo de 23/05/22010.

* * *

Música S/A
Grandes marcas se associam a gravadoras e artistas, ajudando a tirar a indústria fonográfica do buraco


Antônio Carlos Miguel

Marisa Monte, Lenine, Céu, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil, Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho, Carlinhos Brown, Vanessa da Mata, Tantinho da Mangueira, Cidadão Instigado, Grupo AfroReggae, Naná Vasconcelos, Marcelo Jeneci... A lista acima, alternando nomes consagrados e emergentes, traz alguns dos patrocinados pela Natura nos últimos cinco anos e forma um elenco para gravadora nenhuma botar defeito. Num momento em que as multinacionais do disco parecem reduzir o investimento em artistas brasileiros, o exemplo da empresa de cosméticos é o mais expressivo de uma tendência que vem crescendo: a associação de grandes marcas à produção musical brasileira. Com isso, ganham artistas, produtores, empresários e as próprias gravadoras, com novos e poderosos parceiros.
Empresas de telefonia, como Oi e Vivo; de roupas, como Levi’s; de refrigerantes, como Coca-Cola; portais na internet, como Terra; fabricantes de automóveis, como Volkswagen e Audi, ou de celular, como Nokia e Motorola; bancos, como o Bradesco; companhias aéreas, como a TAM; e a mineradora Vale (que, este ano, apoia o Prêmio de Música dirigido por José Maurício Machline) engrossam a heterogênea lista.

As formas de atuação podem ser diferentes, mas o objetivo é o mesmo: reforçar o marketing e criar um elo forte com os consumidores de música, que continua sendo uma infalível isca.

Os presidentes das quatro multinacionais do disco que atuam no Brasil, EMI, Sony, Universal e Warner, em afinado coro, confirmam essa parceria, que já vigora há bom tempo no Primeiro Mundo. Segundo José Antônio Éboli, da Universal, a crise fez gravadoras, empresários e artistas perderem certos pudores. Para incrementar ainda mais essas parcerias, sua companhia criou o departamento New Business Development, baseado em São Paulo e ligado ao de música digital.

— Buscamos sinergia com outras marcas, estamos estreitando o contato com as agências de publicidade — revela Éboli.

Na Sony, Alexandre Schiavo também escalou um funcionário com a missão de sair atrás de patrocínios. Ele diz que, no Brasil, havia forte resistência por parte da crítica, dando o exemplo do grupo Jota Quest, atacado por, no início dos anos 00, ter se associado ao refrigerante Fanta. Mas, na época, as farpas vieram também de seus pares, como Marcelo “Los Hermanos” Camelo, em entrevista que rendeu, em julho de 2004, uma briga com Chorão — o líder do Charlie Brown Jr. vestiu a carapuça, já que seu grupo estrelava um comercial da CocaCola, e usou de socos e cabeçadas contra Camelo após um bate-boca em Fortaleza.
Sim, os tempos estão mudando.

Ligado à contracultura nos anos 60 e 70, o compositor, cantor e escritor Jorge Mautner dá seu aval: — Quanto mais investimento na arte, desde que vindo de fontes honestas, é positivo. E mostra a mudança de espírito de nossos empresários. A cultura é que determina a educação e toda a alma da nação.

Recordista em vendas da Universal na última década, Ivete Sangalo é pioneira e o melhor exemplo do novo modelo: em 2005, lançou o CD “As super novas” com o apoio da Avon (que encomendou 350 mil cópias, comercializadas porta a porta através de suas vendedoras); em 2007, teve ajuda do Bradesco na produção do DVD “Ao vivo no Maracanã”; e, agora, associouse à TAM, patrocinadora do show que fará dia 4 de setembro no Madison Square Garden, em Nova York.

— Além de ter Ivete como garota-propaganda, a TAM já consegue retorno para o seu negócio, vendendo pacotes de viagem para os fãs. São cinco dias em Nova York, com o ingresso incluído — diz Éboli, que aposta nessa via.

— É o presente e o futuro. A música é uma isca infalível.

Empresa brasileira que mais investiu na música nesta década, através de seu Programa Natura Musical, a marca de cosméticos conta com muitas iscas atrativas, mas, como frisa sua gerente de marketing institucional, Renata Sbardelini...

— Vender música não é nem será o objetivo de nossa marca, e sim cosméticos — diz Renata, que, nos mais de 130 projetos patrocinados contribuiu para a realização de 205 shows, 40 CDs/DVDs e ainda workshops, oficinas, palestras e festivais.

A Natura chega a seu eclético elenco a partir de duas premissas básicas, como explica a executiva: — O primeiro, mais conceitual, é de que sejam artistas com o recorte estético da Natura.

E o segundo, de artistas que trazem uma identidade brasileira, mas com o potencial de atravessar fronteiras, de abrangência universal.

Além de isca, e prestígio, ainda há um bom negócio no negócio em si. Disco pode não mais vender, mas música, em outras plataformas, sim.

Para Leonardo Netto — empresário de Marisa Monte (apoiada pela Natura no show “Infinito particular” e no DVD com o registro dessa turnê internacional) e Adriana Calcanhotto, e que até 1981 foi da equipe de André Midani na Warner —, as gravadoras são lentas na adaptação a novos modelos, “foram cegas em relação à força da internet”, mas detêm um patrimônio valioso e começam a se reinventar: — Elas têm a trilha sonora da nossa vida. Mas, no Brasil, o que falta para entrarmos num novo modelo é um site forte de venda na internet. O que deve acontecer com a provável entrada do iTunes, agora em outubro — diz.

Apple cresceu graças à música

O presidente da EMI, Marcelo Castello Branco, no entanto, não confirma a chegada da loja virtual da Apple: — H á u m a e x p e c t a t i v a crescente, após, em agosto passado, o iTunes ter entrado no México. Mas não temos indícios de que isso aconteça já em outubro por aqui.

Schiavo revela que a Sony fez um grande estudo do mercado digital no Brasil, enviado há um mês para a Apple: — Ele mostra que o Brasil deverá ser o quinto maior mercado da iTunes Store.

Para Sérgio Affonso, da Warner, a marca da Apple poderá mudar o jogo: — Mesmo que algumas plataformas de venda digital no Brasil estejam crescendo, a loja do iTunes vai ter um grande e benéfico impacto.

Enquanto o iTunes não chega, a indústria comemora alguns feitos. Na EMI, a parceria com a Nokia, em 2009, rendeu a venda de 312 mil unidades do disco de Katy Perry.

— O celular vinha com o disco inteiro, que também teve uma edição física, que vendeu 15 mil CDs. O perfil do consumidor e sua exigência mudaram, e temos que atender a essa demanda — completa Castello Branco.

Mesmo que o mercado físico, de CDs e DVDs, persista — com fenômenos como a volta dos LPs de vinil em determinados nichos —, é virtualmente que trafega a música. E com valor cada vez mais forte — como prova a própria Apple, que se reinventou e cresceu ao lançar o iPod e o iTunes.

Mas há sinais disso até em exemplos domésticos. É o caso da estreia do grupo carioca Sobrado 112. A tiragem física, lançada em outubro passado, inaugurando o selo OiMúsica, foi de três mil CDs, mas 200 mil usuários já pagaram R$ 4 pelo download para seus celulares de faixas avulsas.

Façam as contas: R$ 800 mil, dinheiro que cobriu a produção do disco, o trabalho de marketing e deu lucro.

— O CD físico funciona como um cartão de visitas para o grupo, junto à mídia, aos empresários de shows, mas, hoje, os consumidores estão principalmente nos celulares — diz Bruno Vieira, diretor de Serviço de Valor Agregado da empresa e responsável pelo selo OiMúsica, que acaba de lançar seu segundo disco brasileiro, “Copacabana”, do grupo Fino Coletivo, e abrir uma vertente internacional, com “Roots/The best of... so far...”, do grupo australiano The Beautiful Girls. — Lançaremos quatro artistas estrangeiros e quatro nacionais por ano. No segundo semestre, editaremos a cantora e compositora paulistana Luísa Maita.

No caso da OiMúsica, uma forte estrutura alavanca seu iniciante catálogo: além do mercado de truetones para celulares (o principal canal de download pago de música no Brasil), a empresa tem 12 emissoras de rádio espalhadas pelo país, teatros no Rio e em Belo Horizonte, portal e TV na internet. Mesmo que setorizados, a divulgação e o marketing estão garantidos, seus artistas entram nos ares radiofônicos sem jabá.

— No portal Oi Novo Som, que funciona como o MySpace, temos 4.500 bandas cadastradas, o que mostra a enorme produção de artistas novos — diz Vieira, que não descarta investir em nomes consagrados.

— Estamos em negociação com muita gente.

Outros portais confirmam esses números. A Trama Virtual tem mais de 160 mil músicas e 70 mil artistas cadastrados.

Os dados são atualizados diária e automaticamente na página da gravadora dirigida por João Marcelo Bôscoli, que, em outra frente, o site Álbum Virtual, faz parcerias com empresas como Volkswagen, Audi e VR, que permitem o lema “De graça pra você e remunerado pro artista”.

Novas ideias para novas trilhas

Bôscoli estreou o formato em 2008, com “DançEcirc;h-Sá ao Vivo”, de Tom Zé, seguido de, entre outros discos, “Artista igual pedreiro” (Macaco Bong), “Donkey” (Cansei de Ser Sexy) e “Chapter 9” e “Piquenique” (Ed Motta).

Há artistas novos que disputam o prêmio de um videoclipe dirigido por profissionais do setor na Plataforma Levi’s Music.

Este ano, em sua terceira edição, o concurso da fábrica de jeans, com votação pela internet, traz cinco grupos apadrinhados por cinco curadores.

Foi de olho nessas novas opções que, no início dos anos 00, o então guitarrista e compositor Rafael Rossatto trocou a banda gaúcha Bidê ou Balde pelo escritório do empresário Manoel Poladian. Em 2004, ele criou a Agência de Música, que atualmente empresaria Marcelo Camelo e Mallu Magalhães: — O primeiro de Mallu foi lançado pela Vivo/Motorola antes do CD físico, enquanto Camelo teve apoio do site Sonora, do Portal Terra. Esse é um dos caminhos. A indústria está mudando, e não quebrando, como muitos pensavam.

19 de abr de 2010

EUA endurecem contra a internet

Sinistro. Deu na Revista Digital d'O Globo de hoje:

***

Comentários da indústria de entretenimento incentivam plano para reprimir liberdade na rede

A indústria do entretenimento nos EUA atacou novamente a internet.

Dessa vez, foi nos comentários pedidos às grandes empresas e entidades do setor pela Coordenação de Aplicação da Propriedade Intelectual em relação ao chamado Joint Strategic Plan, um projeto do governo americano para reforçar as leis de repressão a violações de direitos autorais. A Electronic Frontier Foundation (EFF), defensora dos direitos civis no ciberespaço, publicou trechos dos comentários, feitos por entidades como a Motion Picture American Association (MPAA, entidade que representa estúdios de cinema) e a Recording Industry American Association (RIAA, que defende as gravadoras).

A própria EFF se escandalizou diante do que leu. Richard Esguerra, ativista da entidade que compilou os comentários, escreveu: “Ficamos estarrecidos com a lista de desejos enviada pela indústria à consulta”. Em primeiro lugar, ela sugere que os programas de segurança instalados no computador, como antivírus e afins, sejam usados para vigiar e impedir a violação de direitos autorais na máquina. “Há vários métodos que podem ser usados por administradores de rede e provedores, incluindo ferramentas para o consumidor que controlem a violação de dentro de casa”, sugere um comentário.

Outra ideia das associações é filtrar de tudo quanto é jeito o acesso a possíveis violações, com filtros de protocolos, biométricos, restrição de banda e por aí vai. (“Administradores de redes e provedores deveriam ser encorajados a implementar tais soluções”, afirmam.) O item seguinte assusta. “A Alfândega deve ser incentivada a fazer mais para educar os viajantes. (...) Pontos de entrada nos EUA são locais ainda pouco usados para educar o público sobre a ameaça à nossa economia representada por produtos piratas”. Trocando em miúdos, segundo a EFF: seu iPod na bagagem tem cópias de músicas que você pegou de amigos? Há filmes baixados da internet em seu notebook? “Essas seriam perguntas que a indústria quer ver respondida na alfândega”, diz Richard.

Outros comentários sugerem ainda pressionar países mais liberais com sites que permitem trocar e baixar arquivos, insistindo para que adotem políticas mais repressivas no setor

16 de mar de 2010

Rede Brasileira de Blogs de Música

O Problema

Há tempos eu venho pensando em como minimizar o efeito da dispersão da atenção causada pelas novas tecnologias. Como já é do senso comum, gravar e lançar uma canção nunca foi tão fácil e tão barato. Difícil é chamar a atenção. Sem contextualização, filtragem, recomendação e avaliação, fica muito difícil para o ouvinte navegar nessa inundação de informação.

Nos longínquos idos do século XX nós tínhamos a TV, a rádio e os críticos nos indicando quem valia a pena ser ouvido, entre os que já haviam sido selecionados pelo diretores artísticos das gravadoras. Nosso trabalho de filtragem e seleção era infinitamente facilitado. Por outro lado, era quase impossível um artista novo se destacar fora do esquema da grande mídia.

Hoje temos democracia mas não temos tempo nem capacidade de selecionar quem nos interessa. Será melhor ou pior? Não sei, mas temos que lidar com a realidade.

O que venho propor não é uma ideia fechada, mas um ponta-pé inicial numa rede colaborativa. Até para definirmos o que faremos. Não quero ser o dono da história. Nem tenho tempo para isso. Mas como já venho lidando com o problema faz algum tempo, tenho algumas ideias para começarmos nosso projeto coletivo.

A Rede

Hoje eu percebo que muita gente escreve sobre música na rede, mas que os leitores desses blogs são poucos ou dispersos. Os serviços que esses jornalistas informais poderiam prestar são enormes, mas o mal que ataca a música – dispersão da atenção – também cai sobre a produção escrita.

Para nós, músicos, tanto quanto para o público, contextualização, curadoria, indicação etc. são preciosos. Para isso temos que juntar forças.

Se essa força colaborativa se tornar bastante visível, passaremos a ser referência para músicos - que nos enviarão suas novas obras - e ouvintes ávidos por novidades.

Minha proposta é a de criarmos uma forma de conectar todos esses blogs, independente de estilo musical, gosto, forma de apresentação, num só lugar para facilitar as buscas dos ouvintes. Ter uma aliança, sem perdermos as individualidades e a liberdade da informação.

Minha primeira ideia foi a de recorrer ao Overmundo para ser esse ponto de contato, visto que ele já tem ferramentas e capacidade de armazenamento e transmissão de dados suficiente para esse mundo. Outras ideias são bem vindas. Também não cheguei a uma conclusão sobre a melhor forma de apresentarmos essa massa de informação.

O que eu tenho aqui não é uma solução, mas um local para criarmos juntos essa história. Todos que têm um blog sobre música estão convidados a embarcar nessa viagem que promete trazer muitos benefícios para os artistas e para o público brasileiros.

24 de fev de 2010

Sellaband vai à falência. Uma pena! Ficam as lições.


Fiquei triste com a notícia da falência do site Sellaband, que foi um dos pioneiros da idéia de artistas serem financiados pelos seus fãs. Nessa hora muita gente começa a dizer: “Viu? Eu sabia que isso não ia dar certo.” Mas não acho que seja o caso. Outros sites com a mesma visão, mas com execução e modelo de negócio diferentes, estão trabalhando bem. O mais óbvio deles é o Artist Share.

Uma das principais diferenças de percepção vem de como o fã entra nessa história. Para o Sellaband, assim como para o francês My Major Company, entre outros, o fã é um investidor que vai lucrar com o sucesso do artista que ele apoiou financeiramente. Nunca vi como essa ideia pudesse dar certo. O fã quer música de qualidade que ele goste, não é um negociante que visa lucro acertando na contratação do artista que vai ser um sucesso. Aliás, esse modelo vem desabando faz tempo.

Na minha opinião, o público de um artista pode querer ajudar a financiá-lo por necessitar do trabalho do mesmo, porque aquela música é importante para ele. Ele quer pagar para que aquele artista continue a maravilhá-lo. Não está nessa por dinheiro.

Outro lado importante dessa história é que o Sellaband não ajudava seus artistas a realmente se conectar com os fãs – fator mais importante desse equação - e se comportavam como uma gravadora sem exercer as atividades de marketing e divulgação das antigas majors.

Resumindo, não acho que a falência do Sellaband signifique que o modelo de negócio para os artistas baseado no financiamento dos fãs seja ruim. Mas temos que aprender com os erros dos pioneiros para criarmos algo mais sólido.

Acho que todos temos que agradecer aos seus fundadores por terem tido a coragem de criar algo novo que vai ajudar a pavimentar essa nova estrada para o futuro que estamos criando agora.

Para mais informações, recomendo o artigo do Techdirt abaixo que defende a mesma tese


SellaBand Bankruptcy Shows Poor Execution; Not A Condemnation Of Fan Funding
from the too-bad,-but... dept


With the news that SellaBand has filed for bankruptcy, we've been seeing some gloating among those who don't believe in direct-to-fan or fan-supported business models for music -- suggesting that Sellaband's failure is an indication that those models don't work. Of course, that's kind of like arguing that the personal computer industry is a failure because Osborne went out of business. Sellaband wasn't the first in the market, but certainly was a pioneer in promoting fan-focused business models. But a lot of Sellaband's troubles came down not to the model, but to actual execution. Every time we'd post about Sellaband, we'd receive a bunch of emails and comments from people who had really bad experiences working with the company. 

Unlike the more recent crop of companies in this space, that appear to be a lot more flexible, Sellaband was pretty rigid in its setup. Rather than designing itself as a platform for fan funding, it tried to position itself as a label that also used fan funding -- but that required doing a lot of stuff that labels help with, and one of the complaints with Sellaband was that it wasn't well setup to handle much of that. Separately, unlike other fan funding options, Sellaband used to require a band to raise $50,000 -- which is a lot more than many bands might need. Eventually this changed, but it made things slow going for Sellaband. Furthermore, one of the bigger problems with Sellaband was that it didn't quite have the model right. It did very little to encourage actual connecting with fans, and never did a really good job setting things up so fans had a good reason to buy. Sellaband seemed to assume that people would just support a band for an "investment" in their album. But that mucked up the fan relationship a bit. Fans support a band because they want quality product (music, experience, access) back, not potential monetary returns. 

The failure of Sellaband is a failure of execution, but certainly not of the idea that you can create models that allow content creators to build business models by getting fans to support them via more creative business models.

22 de fev de 2010

Arte e tecnologia?



Beni Borja escreveu:

* * *

Em junho próximo acontecerá em Nova Iorque o leilão do acervo de obras de arte da Polaroid.

O acervo conta com obras de alguns dos mais renomados artistas plásticos americanos do século XX , como os fotógrafos Ansel Adams e Robert Mapplethorpe e pintores como Robert Rauschenberg e Andy Warhol , esse um viciado declarado em polaróides.

Como é que essas obras foram se constituir numa das propriedades mais valiosas da massa falida da Polaroid?

É uma história simples e que revela como arte e tecnologia se beneficiam mutuamente pela convivência próxima.

Edwin H. Land , o inventor do filme de revelação instantânea e fundador da Polaroid, além de ser um químico genial era um sujeito que pensava com a própria cabeça. Ele percebeu que o desenvolvimento da tecnologia da fotografia instantânea necessitava da colaboração de quem a usasse de forma criativa. Por isso deu de presente ao fotógrafo Ansel Adams um dos protótipos de sua primeira câmera de fotografia instantânea.

Os comentários de Adams sobre a máquina foram tão úteis, que Land o contratou como consultor . Instado por ele a Polaroid iniciou uma política de dar câmera e filmes para os artistas em troca de algumas fotos, que colecionadas ao longo dos anos , resultam no acervo que agora vai ser leiloado .

Meu filho Francisco de 8 anos descobriu os Beatles. Por conta disso, tenho sido forçado a ouvir compulsivamente a obra completa remasterizada lançada no ano passado.

Os Beatles continuam impressionando os ouvidos de hoje, não apenas pela genialidade musical , mas também porque suas gravações são um modelo de integração entre arte e tecnologia.

Nos estúdios de Abbey Road , onde os Beatles registraram a maior parte da sua obra , o grupo não encontrou apenas um local adequado para registros sonoros, mas uma cultura de inovação e criatividade em tecnologia.

Se os quatros cavalheiros de Liverpool criaram canções que desafiam o tempo, ouvindo outros discos gravados na mesma época em Abbey Road como ¨Piper at the Gates of Dawn¨ do Pink Floyd ou ¨Begin Here¨ do The Zombies , se verifica que a inovação sonora dos Beatles não foi exceção , mas era a regra nos estúdios da EMI.

Os plug-ins do meu Pro-Tools , cheios de imitações de efeitos criados na época ,atestam o poder da interação entre artistas criativos e engenheiros curiosos.

Hoje , zonzo diante de tantas inovações tecnológicas, me pergunto:

Onde e quando será agora esse encontro entre arte e tecnologia?

Saudações musicais,
Beni

Crédito da foto: Ron Galella

19 de fev de 2010

Abaixo os impostos sobre a música!

Artigo do deputado Otavio Leite, publicado em O Globo em 19/2/2010.

* * *

Muito se tem falado sobre crise. Em sentido amplo.

Crescimento econômico abalado, desemprego, instabilidades etc. Ao mesmo tempo muito se tem ouvido sobre medidas que visam a combater depressões pontuais. Vide as desonerações de tributos no setor automotivo, nas linhas branca e azul de equipamentos e utilidades domésticas, construção civil, nos setores de exportação etc.

Mas há um segmento de formidável potencial econômico, que representa em si incalculável valor cultural: a indústria da música brasileira, que vive um delicado e preocupante momento, a se agravar a cada instante.

Urge socorrê-la.

O diagnóstico é simples. As pessoas prosseguem ouvindo e cultivando música, mas por outro lado o “mercado oficial” vem sendo cruelmente dominado pela perversa informalidade e pelo câncer da pirataria. Não é de hoje que assistimos as quedas abruptas nas vendas de CDs, concomitante ao crescimento exponencial dos downloads não remunerados. Curiosamente, mercê da convergência digital, vimos avançar o campo da telefonia como mercado de música.

Esta é a equação a que se submetem milhares de brasileiros (conhecidos e anônimos) que atuam e procuram se sustentar como profissionais da música. E que hoje, basicamente, sobrevivem de shows.

Por entender que se trata de um produto de profundo valor cultural — a MPB —, é que propusemos, ao lado de diversos deputados e que representam todas as regiões do país, a chamada PEC da Música (98/07). A ideia consiste em classificar a música produzida no Brasil como imune a qualquer imposto. Implantar na Constituição o mesmo tratamento que foi concedido ao livro. O que faz sentido, pois se equivalem em importância para a nação.

Avançamos na tramitação. Foram dois anos e meio de profundos debates, estudos, inúmeras audiências públicas (para as quais estiveram dezenas e dezenas de artistas, músicos , gravadoras, produtores independentes e profissionais da música em geral ). Todos do mesmo lado. Em uníssono, conclamando o Congresso a fazer algo diante desta galopante decadência.

Chegamos a fazer uma ressalva no texto, para dissipar as preocupações do Amazonas de que as fábricas (hoje são apenas seis) pudessem ser estimuladas a se transferirem de Manaus para outra região do país. Enfim, tudo pronto para votar. Com acordo de liderança e aquiescência do presidente Michel Temer, para tal.

Eis que o governo, através de suas lideranças — possuem maioria — , freou a votação e reivindicou “um tempo” para o Ministério da Fazenda examinar os impactos da proposta.

Junto ao ministro Guido Mantega estivemos, deputados de governo e da oposição (a bandeira é suprapartidária), artistas e profissionais a fim de sensibilizá-lo para a causa. Concebe mos alternativas. Aguardamos o seu pronunciamento.

O que nos interessa é adotar procedimentos que permitam a queda do preço na venda ao consumidor final.

Seja para os CDs e DVDs (até quando existirão?), seja nas vendas pela internet que, se não tributadas, podem migrar para a formalidade justamente remuneradas a um preço convidativo; seja para extinguir os tributos nas músicas adquiridas no âmbito da telefonia e em qualquer outro meio digital por vir.

O fundamental é que as pessoas possam, cada vez mais, consumir música. Para todos os gostos. Acarretando dinamização e aquecimento do mercado da indústria fonográfica , gerando mais emprego, renda e, sobretudo, promovendo o fortalecimento de um bem maior: a cultura nacional.

Todos ao “front” na Câmara dos Deputados! A ideia é classificar a música popular brasileira como imune a impostos.

12 de fev de 2010

Os cinco pontos cruciais para o músico que está começando

Perambulando pelo Music Think Tank, achei este resumo das ideias expostas em uma entrevista dada à BBC por Andrew Dubber e Bruce Warila.

1) Descontextualize primeiro, divulgue depois.
Artistas adoram suas música e suas cançnoes, e deveriam mesmo. Entretanto, antes de se atirar em um ano se promovendo, se esforce em ter um feedback anônimo de pelo menos trinta amigos, vinte artistas e de dez profissionais da indústria da música. Se a maioria gostar de suas canções, aí divulgue-as. Caso contrário, volte para as aulas/estúdio e aprenda primeiro como fazer música "melhor".

2) Não dê atenção a divulgadores que fizeram sucesso em 1999.
Ninguém tem a resposta de como obter e manter uma exposição no mercado de massa. Ninguém! Não me importo sobre o que alguém diz que conseguiu no passado; faça-o demonstrar o sucesso que conseguiu seis meses atrás.

3) Procure por produtores experientes.
Quando o negócio é fazer música, experiência é subestimada nesse meio. Os estúdios estão fora do negócio porque todo mundo é produtor/engenheiro de som. Encontre os mais experientes/bem sucedidos produtores, engenheiros de som e compositores que você puder achar. Dinheiro gasto num produtor bem sucedido ou num grande compositor lhe levará mais longe que gastar com um "expert" em divulgação.

4) Não siga sozinho.
É quase sempre perda de tempo! (Tradução: divulgue e colabore com outros artistas)

5) Aja como uma empresa de software.
Expanda sua definição de "banda" para incluir pessoas que cuidem de coisas como mídias sociais, produção de vídeo e desenvolvimento de software. Encontre alguém para ajudá-lo a usar a justa medida em seu negócio para compensar todos os envolvidos.

7 de fev de 2010

Rio Music Conference 2010



De 10 a 16 de fevereiro vai acontecer na Marina da Glória a Rio Music Conference, evento dedicado à música eletrônica.

Nos dias 10 e 11 serão palestras, painéis, workshops e feira de negócios. Dos dias 12 ao 16, uma programação variada de música. Eletrônica, claro.

Pelo que vi na programação, estão na pauta dos debates muitos dos assuntos que temos discutido por aqui. Vou tentar assistir a pelo menos um dia de palestras.

Veja a programação e outras informações neste link.

2 de fev de 2010

Discos voadores

Deu n'O GLobo deste sábado:

* * *

Com o pé no freio, gravadoras procuram novos modelos para o negócio da música

Antônio Carlos Miguel

Os números divulgados na semana passada, em Londres, pela Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI na sigla em inglês), são dramáticos: entre 2004 e 2008, o mercado de disco no Brasil teve queda de 80%. Uma das consequências dessa crise é o menor investimento na produção de música brasileira por parte das gravadoras multinacionais aqui instaladas, que, juntas com a Som Livre, integram a Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) e ainda responderiam por 80% do mercado brasileiro.

No entanto, correndo por fora, selos independentes ou artistas — muitos organizados na Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), com 113 afiliados — continuam produzindo e lançando. Muito, mesmo que suas tiragens sejam quase sempre pequenas. Ainda aguardando o fechamento dos números de 2009, o diretor executivo da ABMI, José Celso Guida, estima em cerca de 800 títulos nacionais editados. A Biscoito Fino, sozinha, por exemplo, no ano passado, botou 98 títulos no mercado, mais que a soma do que as quatro multinacionais, EMI, Sony, Universal e Warner, lançaram no mesmo período.

Em bom português, as grandes botaram o pé no freio. Mas, segundo os executivos do meio ouvidos pelo GLOBO, o pior passou, e o momento é de encontrar novos modelos para a música, que não parou.

Marcelo Castello Branco, presidente da EMI (também responsável pela companhia na América do Sul e Central), garante que a fase negativa é passado. Entre seus argumentos, está o lançamento de 31 artistas brasileiros em 2009: 19 deles gravados pela própria EMI, sete licenciados (com a empresa assumindo o marketing) e cinco apenas com contratos de distribuição.

— Continuamos arriscando, apesar de sermos mais seletivos. E a música brasileira ainda representa 70% de nosso negócio. Aprendemos a conviver com os problemas e estamos mais proativos — assegura Castello Branco, que também diz que mesmo com o crescimento da venda digital, principalmente para celulares, o produto físico, CD ou DVD, ainda é o que move o setor. Isenção de imposto para CD não veio Desde 2008 líder no mercado brasileiro, a Sony Music, segundo seu presidente, Alexandre Schiavo, ainda banca 90% das produções nacionais que lança.

— Cada vez mais, artistas chegam com discos gravados; gente como Roberto Carlos, Jota Quest e Skank, por exemplo, têm seus estúdios.

Mas, na maioria dos casos, pagamos os custos dessas produções.

E, quando isso não acontece, o que investimos em marketing ainda é muito mais alto do que a gravação em si — diz Schiavo, que lançou apenas 13 títulos novos brasileiros no ano passado. — Sim, estamos investindo menos, mas tivemos lucros nos dois últimos anos. Após perdas seguidas, fizemos o enxugamento necessário.

A Sony também conseguiu outras fontes de renda por meio de seu braço no ramo de shows, a Day 1 Entertaiment, mas o executivo pede mais ajuda do governo: — Reduziram impostos de carros, eletrodomésticos, material de construção; o livro é isento, enquanto isso, a nossa rica produção musical não tem incentivo algum.

Pelo depoimento do presidente da Universal Music, José Antônio Éboli, essa ajuda é urgente. Segundo ele, os dados da IFPI sobre o Brasil são reais.

— A proporção entre produtos nacionais e estrangeiros deve voltar aos níveis do passado, com predominância do catálogo internacional.

Discos de artistas como Lady Gaga, Rihanna, U2 chegam ao Brasil como sucessos, já têm suas fatias do mercado garantidas. Enquanto isso, perdemos o mercado nordestino; depois, o do axé; e, agora, estamos perdendo os sertanejos, eles mesmos se autopirateiam, fabricando até 20 mil discos por mês para distribuírem nas cidades onde fazem seus shows.

Para compensar a perda dos grandes filões populares, a Universal se volta para setores segmentados e, como suas concorrentes, disputa hoje o circuito das livrarias com títulos diferenciados.

Uma das estratégias é relançar em versão “premium”, com faixas bônus e eventuais vídeos, os discos de 2009 de Nando Reis, Zélia Duncan, Titãs e Mariana Aydar, que chegarão às lojas em março.

— Há um consumidor que quer qualidade e não foi seduzido pela pirataria física, nem baixa música ilegalmente. Mas a indústria perdeu o público jovem, aquele que sempre fez diferença no nosso negócio, e reverter isso é muito difícil — lamenta-se Éboli.

O quadro pintado por Wagner Vianna, diretor artístico da multinacional que faltava, Warner Music, é menos pessimista, mas ele confirma que é o catálogo internacional predomina.

— Recebemos do mundo inteiro e já vêm prontos, alguns com sucessos.

No caso de artistas nacionais, nossos contratos agora são de 360 graus, com direito de imagem, digital e agenciamento de shows.

Lançamos seis artistas em 2009 dentro desse modelo, mas há exceções, e boas, como Gilberto Gil, que produz em seu próprio selo.

Gil diz que os muitos anos “de casa e o bom relacionamento” que sempre teve com a Warner influíram na decisão de fazer um acordo de distribuição com a empresa.

— As grandes gravadoras têm muita experiência com o mercado, além do fato de que é reduzido o número de distribuidores independentes com porte para trabalhar na escala requerida para todo o país, quando falamos do disco ou do DVD físico. Mesmo para as majors, a distribuição sempre foi o maior problema — responde, por e-mail, o cantor e ex-ministro.

Entre as afiliadas à ABPD, a Som Livre foi a que mais acreditou na música brasileira — e em nichos rentáveis, como o religioso, de padres católicos a pastores evangélicos.

Seu presidente, Leonardo Ganem, comemora o fato de, a partir de 2007, ter voltado a investir e contratar artistas, criando até subselos, como o Som Livre Apresenta, que lançou no ano passado a cantora e compositora Maria Gadú.

— Seu disco já bateu 50 mil cópias, e agora, com música na novela, começa a crescer no resto do Brasil — conta Ganem.

Diretora artística da Biscoito Fino, a também cantora Olívia Hime conta que, para chegar aos 98 títulos editados em 2009, tanto produziu no estúdio que mantém em sua sede no Rio, quanto licenciou discos que chegaram prontos.

— Há muita música boa sendo feita pelo Brasil todo. Mas, hoje, o negócio do CD é na base dos tostões, só recuperamos o investimento lentamente. Menos pessoas compram discos, mas essas ainda compram muito — diz Olívia, que, para atender esse público, conta com a rede de quiosques em shoppings montada pela gravadora e uma loja na internet, mas também disputa espaço nas livrarias, para onde migrou o que restou do mercado de CD/DVD.

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Conteúdo é mais importante do que formato
Para Marcos Valle, com a crise, grandes gravadoras estão revendo o conceito de só apostar no lucro imediato.

A maré pode andar difícil para os peixes graúdos, mas há quem enxergue possibilidades na crise sem fim. É o caso de Marcos Valle, que em quatro décadas de carreira já experimentou diversos formatos.

— Prefiro esse momento do que no início da década, quando a indústria do disco vivia a euforia das vendas astronômicas e dava todas as cartas, sem apostar em nada que não desse lucro imediato — diz Valle, que, nos últimos anos, tem gravado bastante, seja bancado pelo selo inglês Far Out ou por patrocinadores. — Tanto em “Jet samba” quanto em “Página central”, este em dupla com Celso Fonseca, tive investidores e depois negociei o lançamento.
Lulu Santos, também com muita estrada, diz preferir se concentrar na sua música: “Não sou alheio nem alienado, mas o assunto não me excita”.

Por isso mesmo, após produzir o recente CD “Singular”, assinou um contrato de licenciamento com a EMI.

— Quero imaginar que o grupo empresarial que me representa no mercado gasta mais tempo e energia buscando essas soluções com mais competência. O que fazemos é contornar as dificuldades na prática, principalmente não deixando faltar música, que sempre está em demanda.

À frente da empresa RWR, o diretor de TV Roberto de Oliveira tem apostado pesado na produção independente, que depois negocia com diferentes parceiros. Nos últimos cinco anos, foi o responsável por DVDs de medalhões e novos: Chico Buarque, Rita Lee, Marcos Valle, Dona Ivone Lara, Mart’nália, Malu Magalhães, Silvia Machete... Para ele, as mudanças no setor de entretenimento serão bem maiores: — As gravadoras estão sofrendo o impacto da mudança de tecnologia, a distribuição digital, que é mais grave que os prejuízos causado por CDs e DVDs piratas, pois deve acabar com o suporte físico — diz o produtor, que faz um exercício de futurologia. — Em breve, os consumidores vão pagar pouco ou nada pelos conteúdos, que serão bancados por patrocinadores, que por sua vez só pagarão pelas mensagens efetivamente clicadas.

Conteúdos mais sofisticados serão cobrados, e estas receitas e as verbas publicitárias vão pagar a conta do conteúdo fornecido gratuitamente e a remuneração de produtores e artistas. (A.C.M.)

23 de jan de 2010

1450-1550: um espelho distante


Deu no Estadão este – mais uma vez – ótimo texto do Pedro Dória. Como complemento, sugiro a leitura de um post nosso sobre o mesmo tempo e tema, de alguns meses atrás.

Revolução Digital: o fim da escassez de informação
22 de janeiro de 2010
Por Pedro Doria

Se eu fosse um estudante de história, hoje, com mestrado ou doutorado à frente, me dedicaria a examinar a Europa no século entre 1450 e 1550.

Mas, antes, um pulo ao presente.

Não é difícil explicar como as tecnologias digitais viraram o mundo de cabeça para baixo. Começa com um conceito econômico básico: escassez. Se há demanda por um bem escasso, haverá gente disposta a pagar para tê-lo. A indústria que lida com informação – não só jornais como cá o Estado, mas também livros, música, cinema e tantos outros – se baseava na escassez de dois bens. Fazer cópia de informação – livro, disco, filme – era caro. E distribuir a informação copiada para vários pontos de uma cidade, estado ou país, era igualmente caro.

Tecnologias digitais, a internet entre elas, jogou o preço no chão. Não é de graça – banda larga, afinal, tem lá seu custo, computador e celular de ponta também – mas comparado ao que havia antes, é quase de graça.

Avatar custou 500 milhões de dólares para ser feito. É um filme particularmente caro. O problema é que filmes como Atividade Paranormal – 15.000 dólares – são também exceção, não regra. O preço de um bom filme está, no mínimo, na casa dos centenas de milhares. Sempre foi caro. Cidadão Kane, de 1941, saiu por 690.000 dólares (dá uns 10 milhões ajustando pela inflação). Mesmo o cinema independente: O Acossado, de Jean-Luc Godard, custou 82.000 dólares em 1960, 587.000 em dinheiro atual.

Tecnologia digital barateou equipamento, mas gente continua precisando de dinheiro. Bom fotógrafo, iluminador, figurinista. O que dá a um filme uma certa estética à qual nos habituamos é um conjunto grande de profissionais. El Mariachi custou 7.000 dólares em 1992. É um excelente filme B e lançou seu diretor, de Robert Rodriguez, para a fama. (Rodriguez fez de tudo nas filmagens.) Seu segundo filme, Desperado, saiu por 7 milhões. Bons filmes podem ser feitos por muito pouco, mas a economia tem efeitos imediatos na estética. Se, em algum momento, a indústria do cinema for incapaz de pagar pela produção, passaremos a ter filmes fundamentalmente diferentes. Nenhum juízo de valor aqui. Mas algo terá sido perdido.

O que sempre pagou o preço foi a exploração do fato de que copiar e distribuir era caro. Eram poucos os lugares nos quais se podia ver um filme. Com controle quase total sobre quem copiava e distribuía, muita gente fez fortunas ainda que pagando altos custos de produção.

Um elemento ainda protege a indústria do cinema. Os arquivos são grandes. As gravadoras foram duramente atingidas por volta de 2000, no momento em que modems mais rápidos e o início da banda larga fizeram com que a transferência de arquivos de música pela rede se desse em poucos minutos. E banda larga, evidentemente, aumenta de capacidade a cada ano.

Cinema é só um exemplo. Toda indústria que lida com informação está sendo atingida de uma forma ou de outra. Não é a primeira vez que algo assim ocorre. A imprensa de Johannes Gutenberg entrou em operação no ano de 1450. Não teve repercussão imediata na vida de seu criador, que morreu falido. Mas espalhou-se pela Europa toda nas décadas seguintes, barateando violentamente o preço da cópia de informação. Um século após, o continente estava completamente transformado.

Muitos livros e ensaios foram escritos para tratar dos efeitos da tecnologia de impressão. São amplamente conhecidos. Mas apenas um livro – The Printing Press as an Agent of Change, de Elizabeth Eisenstein – foi escrito para tratar das ansiedades e desconfianças do momento em que a mudança ainda estava ocorrendo.

É o período fascinante em que vivemos.

19 de jan de 2010

Música gravada: uma bolha no tempo

www.michaelspornanimation.com/splog/?p=1251

Brian Eno:

"Acho que discos foram apenas uma bolhinha no tempo e aqueles que conseguiram seu sustento com eles foram uns sortudos. Não há razão por que se ganhe tanto dinheiro vendendo discos , exceto quando tudo estava certo naquele período de tempo. Eu sempre soube que iria dar errado cedo ou tarde. Não podia durar muito, e agora está dando errado. Não me importo particularmente que seja assim e gosto da forma que as coisas vão indo. A era do disco foi apenas uma piscadela. Era com se você tivesse banha de baleia nos anos 1840 e a utilizasse como combustúvel. Antes de aparecer a gasolina, se o seu negócio fosse banha de baleia você seria o homem mais rico da Terra. Aí veio a gasolina e você ficou para trás com sua banha de baleia. Foi mal, parceiro – a história continua. Música gravada é igual a banha de baleia. No fim, outra coisa a substituirá."

Do original no Guardian:

“I think records were just a little bubble through time and those who made a living from them for a while were lucky. There is no reason why anyone should have made so much money from selling records except that everything was right for this period of time. I always knew it would run out sooner or later. It couldn’t last, and now it’s running out. I don’t particularly care that it is and like the way things are going. The record age was just a blip. It was a bit like if you had a source of whale blubber in the 1840s and it could be used as fuel. Before gas came along, if you traded in whale blubber, you were the richest man on Earth. Then gas came along and you’d be stuck with your whale blubber. Sorry mate – history’s moving along. Recorded music equals whale blubber. Eventually, something else will replace it.’’