1 de mar. de 2011

Ministério da Cultura está pegando fogo!



Vou reunir diversos textos que saíram hoje sobre o assunto que está fervendo:

"A coisa está pegando fogo no direito autoral. A atual Ministra da Cultura desprezou 8 anos de trabalho da gestão Gil/Juca, além de uma extensa consulta pública sobre o projeto de mudança da Lei de Direito Autoral para dar ouvidos às sociedades arrecadadoras e ao ECAD. Ou seja, os criadores e a sociedade não merecem ser ouvidos.

O ECAD é apenas o órgão cobrador dos nossos direitos mas não tem autonomia para nos representar. Não queremos o fim do ECAD, apenas desejamos que ele seja mais transparente e que consigamos criar um órgão que o controle, como uma agência reguladora. Para evitar abrir essa caixa preta – termo negado pelo ECAD, que se diz transparente, obviamente – toda a reforma foi detonada.

Vamos tentar reverter essa história conversando diretamente com a Ministra sem intermediários. Mas precisamos da mobilização da população para a nossa causa. Quanto mais vozes, menos os ouvidos se poderão fingir de surdos. Ou vai ficar mais insustentável o fingimento.

Para ler a reportagem que saiu no Globo de hoje, clique aqui

Ah, Ivan Lins arrasou!"


Publicado no meu site: www.leoni.com.br

"Racha agita área de direitos do Minc
Estadão - SP, por Jotabê Medeiros, em 01/03/2011
Servidores ameaçam demitir-se em protesto contra saída de Marcos Souza, da direção de Direitos Intelectuais

Um racha atingiu ontem a Diretoria de Direitos Intelectuais do Ministério da Cultura em Brasília. A internet foi tomada com diversas manifestações de protesto pela exoneração do diretor da área, Marcos Alves de Souza. O imbróglio deve se radicalizar: 16 pessoas ameaçam afastar-se daquele setor do ministério nos próximos dias, segundo informações obtidas pelo Estado.

O Ministério da Cultura ofereceu a Souza, especialista jurídico em direitos de autores e um dos principais consultores do novo anteprojeto da reforma da Lei de Direitos Autorais, a possibilidade de assumir outra função na Diretoria de Direitos Intelectuais, mas ele recusou. Em seu lugar, foi nomeada a advogada carioca Marcia Regina Vicente Barbosa, de 56 anos, que integrou o Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA) entre 1982 a 1990. Advogada da União, Marcia foi integrante da Consultoria Jurídica do Ministério da Cultura, de 2006 a 2010, e integra a Consultoria Geral da União desde maio de 2010."


(A íntegra do texto está no site Estadão, dia 01/03/2011)

Tweet enviado por mim @Leoni_a_jato e retuitado por muita gente:

@anadehollanda ECAD não é entidade representativa. A senhora precisa ouvir a classe. Queremos ter nossa própria voz


Para encerrar, uma carta muito boa e importante do Forum Nacional da Música sobre o assunto:



DIREITO AUTORAL PARA A MÚSICA
FÓRUM NACIONAL DA MÚSICA



A questão do Direito Autoral no Brasil vem sendo amplamente discutida há vários anos. Em 2005, durante a Câmara Setorial da Música esse foi um dos temas centrais do debate. O Fórum Nacional da Música, naquela ocasião representado por onze das dezessete unidades da federação mobilizadas (Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe), participou ativamente das discussões, junto a diversas outras entidades ligadas à música. Os documentos aprovados pela Câmara Setorial de Música trazem significativos avanços para a área, não somente no que tange o Direito Autoral, mas em diversas outras questões importantes. Especificamente sobre o Direito Autoral, consideramos que tal documento, fruto de debates já desenvolvidos com a sociedade civil em diversas cidades brasileiras, contribui com a transparência e eficiência da legislação e do sistema de arrecadação de direitos de autor, em benefício deste. Por esta razão, reconhecemos a importância do debate conduzido pelo Ministério da Cultura. Propomos, como meta fundamental, a reestruturação do sistema de arrecadação e distribuição dos direitos autorais, com a criação de um órgão público regulador com a participação da sociedade civil. Por estes motivos, explicitamos algumas ações que acreditamos sigam nesta direção:


1 - Criação de uma instância ou órgão público (dividido paritariamente entre sociedade civil e governo) que exerça a fiscalização e regulação do sistema de arrecadação e a mediação de interesses, ampliando a transparência na Gestão Coletiva do Direito Autoral no Brasil.

2 – Publicização do documento resultante da Consulta Pública realizada pelo Ministério da Cultura junto à sociedade civil em 2010.

3 - Penalização de emissoras de rádio e televisão inadimplentes

4 – Criminalização do Jabá (pagamento ilegal para execução de música em rádio e televisão)

5 – Estudo, modernização e implementação de um novo mecanismo de arrecadação e distribuição de direito autoral levando em conta as novas tecnologias disponíveis

6 – Estabelecer uma nova destinação para o Fundo Retido de Direitos Autorais tais como a criação de um Fundo para formação musical e linha de crédito para os autores

7 - Estabelecer mecanismos, por meio do órgão regulador, para que a cobrança de direitos autorais dos provedores de conteúdo digital seja realizada de maneira transparente

8 – Publicização do balancete analítico-financeiro do órgão arrecadador e distribuidor.

Por fim, entendemos que somente através do debate entre governo e sociedade civil podemos encontrar soluções viáveis para o desenvolvimento da cadeia formativa, criativa e produtiva da música no que tange os Direitos Autorais e as diversas questões que necessitam ser avaliadas. Desde nossa fundação estivemos presentes em diversas oportunidades contribuindo propositivamente com as discussões, e atualmente, presente em 22 estados da federação, não mediremos esforços para colaborar com os debates e consolidação de políticas públicas em defesa da música no Brasil.

A disposição,

Recife, 25 de fevereiro de 2011.


Fórum Nacional da Música


Du Oliveira
(Executiva Nacional – Centro-Oeste)

Gláfira Lobo
(Executiva Nacional – Norte)

Naldinho
(Executiva Nacional – Nordeste)

Makely Ka
(Executiva Nacional – Sudeste)

Téo Ruiz
(Interlocutor Geral e Executiva Nacional – Sul)


O assunto está pegando fogo e a classe artística musical está começando a se mobilizar como nunca vi acontecer durante a minha carreira.

Assistam cenas dos próximos capítulos a qualquer momento

11 de fev. de 2011

A cor do gato



O amigo Beni Borja nos presenteia com mais um artigo:

***

“Quem gosta de arte é banqueiro , artista gosta é de dinheiro”.

A frase, cujo autor desconheço, é obviamente um absurdo, já que para fazer arte é antes preciso apreciá-la.

Mas ela chama atenção para uma verdade fundamental sobre a atividade artística. Fazer dinheiro com a sua obra é um problema permanente do artista.

Parece ter se perdido de vista, nessa discussão recente sobre o direito autoral, a razão essencial da existência dessa precária construção jurídica: garantir o equilíbrio nos negócios entre criadores e os consumidores da sua criação.

É importante lembrar que não foram os direitos autorais que “inventaram” o comércio da criação artística. Negócios entre criadores e consumidores acontecem desde muito antes de existirem leis sobre isso. Os direitos autorais são apenas a garantia que o Estado oferece para os negócios privados de comércio da criação. Só isso.

Quando compramos um cacho de banana na feira não pensamos sobre as implicações legais desse gesto, porque nesse ato comercial simples as partes normalmente ficam relativamente satisfeitas com o negócio. Com ênfase no “relativamente”, já que em negócios não há nunca satisfação total possível.

Mas se as bananas estiverem estragadas, ou se a virmos um cacho semelhante por metade do preço em outra banca da feira, subitamente nos recordaremos dos direitos dos consumidores e de outras garantias legais.

Quando um negócio entre particulares dá certo, quando as partes saem da negociação com a sensação de que fizeram o melhor negócio possível, ninguém se lembra de recorrer à Justiça.

A lei e a Justiça só aparecem quando o negócio deu errado, quando alguém se sente injustiçado. Lembro de outra frase, essa do governante reformista chinês Deng-Xiao-Ping - “Não importa a cor do gato, o que importa é que ele pegue o rato”. O que importa na prática para o artista não é o direito que ele tem sobre a sua obra, o que importa finalmente é o “din-din” que vai bater na sua conta.

Muitos atores nessa pantomima querem vesti-la como uma questão de princípios. Como se houvesse alguma divergência fundamental em relação ao poder do artista sobre a sua obra entre o campo dos “modernautas” do Creative Commons e os “reacionários” do velho direito do autor.

Papo furado. A questão central de toda essa discussão é mesmo o velho e bom vil metal.

Observo que enquanto a classe musical está em pé-de-guerra sobre uma reforma dos direitos autorais, criadores de outras formas de arte raramente se manifestam sobre o tema.

Ocorre que nós músicos e compositores, estávamos descansando na praia, justamente na hora em que o tsunami digital chegou arrastando tudo. Então é natural que sentindo nos nossos bolsos os seus efeitos devastadores, sejamos os primeiros a chiar. Mas em breve, escritores e cineastas juntarão suas vozes a essa gritaria.

Mas todo esse barulho serve para muito pouco, enquanto ninguém souber qual é o negócio possível entre os criadores e os consumidores de obras reproduzíveis.

O problema é que o negócio de vender a arte que pode ser reproduzida está em fluxo , vivendo uma transformação acelerada que vai nos levar a algum lugar ainda desconhecido.

Esse é o “X” da questão. Porque as leis são criadas para estabelecer a equidade entre as partes em modalidades de negócio que já existem na realidade do mundo.

Voltando à feira. A lei obriga o feirante a aferir sua balança porque se vendem coisas a peso nas feiras. O “dever ser” da lei só existe porque a prática do mercado já definiu seus parâmetros.

E no momento não há parâmetros no mundo digital, porque o negócio que existia está sendo desmontado , e o novo negócio ainda não apareceu. Portanto discutir novas leis nesse momento é antes de tudo intempestivo.

Por outro lado, temos que convir que não será tentando manter a qualquer custo um modelo de negócio que faz água por todos os lados, que vamos conseguir melhorar o saldo bancário dos criadores.

Um pouco mais de pragmatismo comercial e um pouco menos de idealismo jurídico fariam muito bem a essa discussão.

Se os detentores de direitos autorais forem mais receptivos a idéias novas sobre como fazer dinheiro com as suas obras, e os “geeks” forem mais receptivos a idéia de que criadores têm contas para pagar como todo mundo, podemos acelerar muito o inevitável processo de tentativa e erro que levará ao aparecimento de um novo modelo de negócios para a criação artística.

Resumindo : Tem muito direito e pouco negócio nessa discussão. Quem gera dinheiro, que é o que anda faltando no bolso dos criadores, são os negócios, não os direitos.

Saudações Musicais,
Beni

Crédito da imagem: Gustave Doré, ilustração e uma fábula de La Fontaine, c.1868

10 de fev. de 2011

Multidão

Multidão from MULTIDAO on Vimeo.

9 de fev. de 2011

Técnicas de marketing direct-to-fan (video)

Vídeo longo, em inglês, mas interessante para os artistas e empresários 2.0:










De volta à atividade

Estivemos afastados do Música Líquida por um bom tempo, mas a polêmica a respeito de direitos autorais na rede anda explosiva e acho que temos bastante a dizer a esse respeito. Por isso a volta.

O primeiro texto já foi publicado no meu site esse semana por conta das opiniões do Caetano Veloso em sua coluna no O Globo. Acho que vale a pena a discussão:

Para Caetano Veloso não é mais proibido proibir

Tenho ficado perplexo com a coluna semanal do Caetano no O Globo. Especialmente por sua tradição de posições inovadoras e ousadas. Além de ser o grande artista que é. Foram duas crônicas falando sobre Direito Autoral de cima do muro. Linhas e mais linhas para dizer que não tinha uma posição sobre o assunto no que se refere à internet. Finalmente, esse domingo, resolveu tomar partido – não sem antes dizer que os dois lados tinham razão (como se tratasse de dois times e não de uma construção através do debate) – e saiu com essa pérola: “É porque acho que devemos respeitar os direitos autorais. Sem concessões. A internet que se vire. Ela e toda sua multidão de internautas em blogs e redes sociais que se vejam na situação de introjetar as leis da vida off-line, a nossa vida. Daqui de fora, podemos exigir.”

Resumindo: ele não entende nada sobre a internet. Primeiro porque, como ele mesmo admite, não está nela. Afinal ele quer exigir “de fora”. Se você não conhece sobre o que está falando, o provável é falar bobagem. Como essa história de que “a internet que se vire”. Ora, a internet não existe da mesma forma que uma empresa, com presidente e diretores. É um conjunto caótico e descentralizado de milhões de colaboradores sem nenhuma hierarquia. Ele teria que convencer cada um dos participantes a concordar com a tese de que as leis da vida off-line são aplicáveis ao mundo virtual. Como se os bits obedecessem às regras dos átomos. Assim é fácil resolver. Caetano não quer mais que a garotada baixe músicas sem pagar, nem veja vídeos que não estão liberados por seus autores. Ora, nem o ditador do Egito consegue controlar a internet.

Sejamos razoáveis. Para esse novo mundo precisamos de novas soluções. Bater o pé não vai adiantar nada. Se queremos receber dinheiro temos que oferecer algo que as pessoas queiram comprar. Baixar música na rede já está deixando de ser importante. E nunca resultou em receitas significativas. A garotada está migrando para o streaming, ouvindo e descobrindo música no YouTube. Mas tio Caetano não aprova. Então, garotada, vamos obedecer os mais velhos. Mesmo que esse mais velho já tenha dito um dia que “É Proibido Proibir”

12 de dez. de 2010

Projeto Estrombo: música e indústria criativa

Uma notícia auspiciosa.

Em 8 de dezembro foi lançado no Rio o projeto Estrombo, que tem como objetivos principais "capacitar, formalizar e apoiar, ao longo de três anos, pessoas e empreendimentos do ramo musical para atuarem em novos modelos de negócios e novos canais de distribuição baseados na internet e nas novas tecnologias – como, por exemplo, ambientes de grande potencial econômico como os aplicativos para redes sociais e celulares e a integração de música com os games."

Saiba mais no site e no vídeo abaixo.



16 de set. de 2010

Mostra Ampla de Cultura, Tecnologia e Inovação

Dentre as interessantíssimas palestras, destaco uma que nos interessa mais. Mo dia 29 de setembro, às 11:00h, Nelson Motta vai falar sobre o futuro da indústria fonográfica e as novas formas de se consumir e vender música.

Foi num texto do Nelsinho que vi pela primeira vez uma citação do David Bowie prevendo que a música ainda seria consumida como água.

31 de ago. de 2010

URGENTE!! Você pagaria R$ 3,00 para baixar qualquer música oficialmente?

Hoje termina o prazo da consulta pública em relação à reforma dos direitos autorais e não havia, até agora, nenhuma proposta concreta para legalização dos P2P, Torrents etc. Nem como remunerar os criadores na internet. Houve muita discussão e nenhum consenso. E não podemos perder essa chance de por ordem na nossa casa virtual. E estou falando tanto para criadores quanto para consumidores – que para a legislação atual são criminosos quando baixam músicas gratuitamente.

Essa é a proposta da USP – G-Popai: para ter acesso à banda larga cada usuário pagaria R$ 3,00 para ter o direito de baixar qualquer música para uso não comercial. É o blanket license ao qual já nos referimos aqui em outros posts. A música feito água.

Muita gente tem críticas ao texto da petição. Tem gente que acha que não se deve determinar um preço de antemão. Concordo. Tem gente que preferia que a proposta incluísse como seria feita a distribuição. Concordo também. Há diversas imperfeições, diversos detalhes que podem ser melhorados, mas o prazo não vai nos permitir.

Então, aconselho todo mundo a assinar a petição e convocar os amigos para fazê-lo. Depois, durante o processo de redação da lei poderemos aperfeiçoar os detalhes que ficaram pendentes. O mais importante é dizer que fã não é pirata e que, dadas as condições, está disposto a contribuir com os criadores. Não pagando caro por arquivos digitais ruins e protegidos, mas que entende a necessidade de remuneração dos profissionais envolvidos no negócio da música.

Faço uma convocação de última hora. Assinem a petição e espalhem a notícia, arregimentem os amigos e os amigos dos amigos.

Aqui está o link para a assinatura:
http://www.gpopai.usp.br/boletim/compartilhamento/article/peticao-compartilhamento-legal

27 de jul. de 2010

Revisitando Indaba, o estúdio das nuvens

Vejo na Revista Digital d'O Globo desta semana um artigo sobre o site Indaba Music, onde você pode compor e mixar músicas online, em grupo. Eu já havia escrito aqui sobre o Indaba há mais de um ano e fico feliz em ver o site vingando, pois é mesmo sensacional.

Na época em que escrevi sobre o Indaba, me cadastrei e publiquei no site uma faixa de viola caipira que cometi. Pouco tempo depois, o norte-americano Mathew Moss acrescentou à viola uma linha de baixo fretless. O resultado ("auditionviola10menor.wav ") vocês podem conferir aqui.

Abaixo, o artigo de O Globo:

***

Jam sessions via ciberespaço
Pedro Giglio

Quantos jovens — de todas as idades — já pensaram em formar uma banda? Seja na garagem ou no estúdio, reunir a galera para levar um som é uma atividade bem divertida...

O problema é que, vez por outra, existem obstáculos.

Formar uma banda completa, conciliar o tempo livre dos integrantes... Ainda bem que existe uma alternativa para os músicos conectados à internet: o Indaba Music .

Lançado em fevereiro de 2007, o Indaba — o nome vem do zulu, significando “fórum colaborativo”, como os realizados pelos chefes tribais para resolver problemas em comum — permite que músicos do mundo componham e colaborem à distância. É possível compartilhar as faixas isoladas de cada instrumento, que ficam à disposição dos colaboradores e visitantes, formando sessões virtuais em potencial.

O site está bombando: tem mais de 500 mil usuários registrados em aproximadamente 200 países.

— Os equipamentos de gravação ficaram tão baratos que músicos já podem gravar canções de qualidade profissional. Pareceu uma evolução natural tornar esta experiência online e permitir colaboração remota — diz Dan Zaccagnino, um dos fundadores.

São muitas as histórias de sucesso do site. Músicos impossibilitados de saírem de seus lares trabalham com outros, bem distantes, e alguns colaboraram com artistas como Yo-Yo Ma, Peter Gabriel, Weezer e Snoop Dogg. Formada no Indaba, a banda inglesa Felsite conseguiu até um contrato para um álbum independente.

Já a banda Marcy Playground lançou um concurso de remix para a canção “Emperor” — no qual um brasileiro se saiu bem. O analista de sistemas Bruno Linhares teve sua contribuição reconhecida nas menções honrosas do júri e do líder da banda, John Wozniak.

— Apesar do aspecto competitivo, todos se ajudavam dando dicas do que melhorar nos mixes — diz Bruno.

Mas é cedo para decretar o fim das “jam sessions” ao vivo, segundo Dan.

— A colaboração online nunca substituirá estar na mesma sala que outro músico, mas pode abrir possibilidades que não existiriam de outra forma, e isto pode ser muito libertador para um aspirante a músico.

23 de mai. de 2010

Artistas, gravadoras e marcas



Deu em O Globo de 23/05/22010.

* * *

Música S/A
Grandes marcas se associam a gravadoras e artistas, ajudando a tirar a indústria fonográfica do buraco


Antônio Carlos Miguel

Marisa Monte, Lenine, Céu, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil, Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho, Carlinhos Brown, Vanessa da Mata, Tantinho da Mangueira, Cidadão Instigado, Grupo AfroReggae, Naná Vasconcelos, Marcelo Jeneci... A lista acima, alternando nomes consagrados e emergentes, traz alguns dos patrocinados pela Natura nos últimos cinco anos e forma um elenco para gravadora nenhuma botar defeito. Num momento em que as multinacionais do disco parecem reduzir o investimento em artistas brasileiros, o exemplo da empresa de cosméticos é o mais expressivo de uma tendência que vem crescendo: a associação de grandes marcas à produção musical brasileira. Com isso, ganham artistas, produtores, empresários e as próprias gravadoras, com novos e poderosos parceiros.
Empresas de telefonia, como Oi e Vivo; de roupas, como Levi’s; de refrigerantes, como Coca-Cola; portais na internet, como Terra; fabricantes de automóveis, como Volkswagen e Audi, ou de celular, como Nokia e Motorola; bancos, como o Bradesco; companhias aéreas, como a TAM; e a mineradora Vale (que, este ano, apoia o Prêmio de Música dirigido por José Maurício Machline) engrossam a heterogênea lista.

As formas de atuação podem ser diferentes, mas o objetivo é o mesmo: reforçar o marketing e criar um elo forte com os consumidores de música, que continua sendo uma infalível isca.

Os presidentes das quatro multinacionais do disco que atuam no Brasil, EMI, Sony, Universal e Warner, em afinado coro, confirmam essa parceria, que já vigora há bom tempo no Primeiro Mundo. Segundo José Antônio Éboli, da Universal, a crise fez gravadoras, empresários e artistas perderem certos pudores. Para incrementar ainda mais essas parcerias, sua companhia criou o departamento New Business Development, baseado em São Paulo e ligado ao de música digital.

— Buscamos sinergia com outras marcas, estamos estreitando o contato com as agências de publicidade — revela Éboli.

Na Sony, Alexandre Schiavo também escalou um funcionário com a missão de sair atrás de patrocínios. Ele diz que, no Brasil, havia forte resistência por parte da crítica, dando o exemplo do grupo Jota Quest, atacado por, no início dos anos 00, ter se associado ao refrigerante Fanta. Mas, na época, as farpas vieram também de seus pares, como Marcelo “Los Hermanos” Camelo, em entrevista que rendeu, em julho de 2004, uma briga com Chorão — o líder do Charlie Brown Jr. vestiu a carapuça, já que seu grupo estrelava um comercial da CocaCola, e usou de socos e cabeçadas contra Camelo após um bate-boca em Fortaleza.
Sim, os tempos estão mudando.

Ligado à contracultura nos anos 60 e 70, o compositor, cantor e escritor Jorge Mautner dá seu aval: — Quanto mais investimento na arte, desde que vindo de fontes honestas, é positivo. E mostra a mudança de espírito de nossos empresários. A cultura é que determina a educação e toda a alma da nação.

Recordista em vendas da Universal na última década, Ivete Sangalo é pioneira e o melhor exemplo do novo modelo: em 2005, lançou o CD “As super novas” com o apoio da Avon (que encomendou 350 mil cópias, comercializadas porta a porta através de suas vendedoras); em 2007, teve ajuda do Bradesco na produção do DVD “Ao vivo no Maracanã”; e, agora, associouse à TAM, patrocinadora do show que fará dia 4 de setembro no Madison Square Garden, em Nova York.

— Além de ter Ivete como garota-propaganda, a TAM já consegue retorno para o seu negócio, vendendo pacotes de viagem para os fãs. São cinco dias em Nova York, com o ingresso incluído — diz Éboli, que aposta nessa via.

— É o presente e o futuro. A música é uma isca infalível.

Empresa brasileira que mais investiu na música nesta década, através de seu Programa Natura Musical, a marca de cosméticos conta com muitas iscas atrativas, mas, como frisa sua gerente de marketing institucional, Renata Sbardelini...

— Vender música não é nem será o objetivo de nossa marca, e sim cosméticos — diz Renata, que, nos mais de 130 projetos patrocinados contribuiu para a realização de 205 shows, 40 CDs/DVDs e ainda workshops, oficinas, palestras e festivais.

A Natura chega a seu eclético elenco a partir de duas premissas básicas, como explica a executiva: — O primeiro, mais conceitual, é de que sejam artistas com o recorte estético da Natura.

E o segundo, de artistas que trazem uma identidade brasileira, mas com o potencial de atravessar fronteiras, de abrangência universal.

Além de isca, e prestígio, ainda há um bom negócio no negócio em si. Disco pode não mais vender, mas música, em outras plataformas, sim.

Para Leonardo Netto — empresário de Marisa Monte (apoiada pela Natura no show “Infinito particular” e no DVD com o registro dessa turnê internacional) e Adriana Calcanhotto, e que até 1981 foi da equipe de André Midani na Warner —, as gravadoras são lentas na adaptação a novos modelos, “foram cegas em relação à força da internet”, mas detêm um patrimônio valioso e começam a se reinventar: — Elas têm a trilha sonora da nossa vida. Mas, no Brasil, o que falta para entrarmos num novo modelo é um site forte de venda na internet. O que deve acontecer com a provável entrada do iTunes, agora em outubro — diz.

Apple cresceu graças à música

O presidente da EMI, Marcelo Castello Branco, no entanto, não confirma a chegada da loja virtual da Apple: — H á u m a e x p e c t a t i v a crescente, após, em agosto passado, o iTunes ter entrado no México. Mas não temos indícios de que isso aconteça já em outubro por aqui.

Schiavo revela que a Sony fez um grande estudo do mercado digital no Brasil, enviado há um mês para a Apple: — Ele mostra que o Brasil deverá ser o quinto maior mercado da iTunes Store.

Para Sérgio Affonso, da Warner, a marca da Apple poderá mudar o jogo: — Mesmo que algumas plataformas de venda digital no Brasil estejam crescendo, a loja do iTunes vai ter um grande e benéfico impacto.

Enquanto o iTunes não chega, a indústria comemora alguns feitos. Na EMI, a parceria com a Nokia, em 2009, rendeu a venda de 312 mil unidades do disco de Katy Perry.

— O celular vinha com o disco inteiro, que também teve uma edição física, que vendeu 15 mil CDs. O perfil do consumidor e sua exigência mudaram, e temos que atender a essa demanda — completa Castello Branco.

Mesmo que o mercado físico, de CDs e DVDs, persista — com fenômenos como a volta dos LPs de vinil em determinados nichos —, é virtualmente que trafega a música. E com valor cada vez mais forte — como prova a própria Apple, que se reinventou e cresceu ao lançar o iPod e o iTunes.

Mas há sinais disso até em exemplos domésticos. É o caso da estreia do grupo carioca Sobrado 112. A tiragem física, lançada em outubro passado, inaugurando o selo OiMúsica, foi de três mil CDs, mas 200 mil usuários já pagaram R$ 4 pelo download para seus celulares de faixas avulsas.

Façam as contas: R$ 800 mil, dinheiro que cobriu a produção do disco, o trabalho de marketing e deu lucro.

— O CD físico funciona como um cartão de visitas para o grupo, junto à mídia, aos empresários de shows, mas, hoje, os consumidores estão principalmente nos celulares — diz Bruno Vieira, diretor de Serviço de Valor Agregado da empresa e responsável pelo selo OiMúsica, que acaba de lançar seu segundo disco brasileiro, “Copacabana”, do grupo Fino Coletivo, e abrir uma vertente internacional, com “Roots/The best of... so far...”, do grupo australiano The Beautiful Girls. — Lançaremos quatro artistas estrangeiros e quatro nacionais por ano. No segundo semestre, editaremos a cantora e compositora paulistana Luísa Maita.

No caso da OiMúsica, uma forte estrutura alavanca seu iniciante catálogo: além do mercado de truetones para celulares (o principal canal de download pago de música no Brasil), a empresa tem 12 emissoras de rádio espalhadas pelo país, teatros no Rio e em Belo Horizonte, portal e TV na internet. Mesmo que setorizados, a divulgação e o marketing estão garantidos, seus artistas entram nos ares radiofônicos sem jabá.

— No portal Oi Novo Som, que funciona como o MySpace, temos 4.500 bandas cadastradas, o que mostra a enorme produção de artistas novos — diz Vieira, que não descarta investir em nomes consagrados.

— Estamos em negociação com muita gente.

Outros portais confirmam esses números. A Trama Virtual tem mais de 160 mil músicas e 70 mil artistas cadastrados.

Os dados são atualizados diária e automaticamente na página da gravadora dirigida por João Marcelo Bôscoli, que, em outra frente, o site Álbum Virtual, faz parcerias com empresas como Volkswagen, Audi e VR, que permitem o lema “De graça pra você e remunerado pro artista”.

Novas ideias para novas trilhas

Bôscoli estreou o formato em 2008, com “DançEcirc;h-Sá ao Vivo”, de Tom Zé, seguido de, entre outros discos, “Artista igual pedreiro” (Macaco Bong), “Donkey” (Cansei de Ser Sexy) e “Chapter 9” e “Piquenique” (Ed Motta).

Há artistas novos que disputam o prêmio de um videoclipe dirigido por profissionais do setor na Plataforma Levi’s Music.

Este ano, em sua terceira edição, o concurso da fábrica de jeans, com votação pela internet, traz cinco grupos apadrinhados por cinco curadores.

Foi de olho nessas novas opções que, no início dos anos 00, o então guitarrista e compositor Rafael Rossatto trocou a banda gaúcha Bidê ou Balde pelo escritório do empresário Manoel Poladian. Em 2004, ele criou a Agência de Música, que atualmente empresaria Marcelo Camelo e Mallu Magalhães: — O primeiro de Mallu foi lançado pela Vivo/Motorola antes do CD físico, enquanto Camelo teve apoio do site Sonora, do Portal Terra. Esse é um dos caminhos. A indústria está mudando, e não quebrando, como muitos pensavam.