3 de ago de 2009

As críticas mais frequentes ao download gratuito - e algumas ponderações

Com o artigo sobre o Música Para Baixar no Globo e sua sequência no blog do Jamari França senti que muitas críticas são repetidas por falta de informação e que a conversa não pode passar para um outro nível no qual possamos colaborar efetivamente porque temos que explicar tudo de novo sobre alguns assuntos que se tornaram motivo de brigas. Temos que sair do confronto para podermos entrar na colaboração e negociação.

Baseado no que foi escrito por lá, resolvi escrever uma pequena cartilha de Críticas Frequentes. Acho que será útil para enriquecer nossas discussões.

Lá vai:

Gravar custa dinheiro, portanto o download não pode ser gratuito – dizer que não pode é feito brigar contra a Lei da Gravidade. No mundo digital todo o cuidado é inútil, a música vai vazar e ser gratuita - o mesmo já acontece com jornais, filmes, livros etc. Mas isso não significa que não haja outras formas de se ganhar dinheiro além do CD e do download. Tentar controlar só vai gerar uma internet vigiada, diminuir nossa privacidade e conduzir toda a população conectada para a ilegalidade.

Os artistas não estão tão preocupados por que podem fazer shows, mas e o compositor? Esse não pode permitir o download gratuito – O compositor vai continuar ganhando onde o artista ainda ganha – shows e execução pública – e vai perder onde o artista já perdeu – venda de CDs. E não há muito mais que possa ser feito. A receita de todo mundo diminuiu e o compositor vai ter que se adequar a essa realidade.

Baixar música de graça é o mesmo que entrar numa loja e roubar uma calça – na internet o que você está baixando é uma cópia que não custou nenhum centavo à gravadora. E que vai ser distribuída sem custo para as mesmas. Quanto a dizer que se perde venda com cada download, posso dizer que nem sempre é verdade. Pelo menos não vejo como provar. As pessoas baixam muito mais músicas do que comprariam, mesmo se tivessem dinheiro para tal. Elas querem conhecer antes de gastar dinheiro. Esse busca pode acabar gerando vendas.

Ninguém vai continuar fazendo música sem ser remunerado – Desse jeito só os amadores, realmente. Só vai continuar na profissão quem estiver atento aos novos modelos e possibilidades e encontrar um jeito de se financiar, seja através dos fãs – o que inclui shows, merchandising, vendas de música etc. -, seja com anúncios, patrocinadores etc. Os outros vão abandonar o barco, com certeza. Essa, inclusive, será uma forma de filtrar essa avalanche de artistas que a democratização das novas mídias criou.

A pirataria existe porque o CD é caro – não era caro quando não tínhamos outra opção. É mais barato do que sair para jantar com a namorada e dura mais – às vezes até mais que o namoro! A escassez faz o preço subir. O problema é que hoje existem muitas outras formas de se chegar à música. Ela não é mais escassa e aí quem determina o preço é o consumidor – e esse não quer pagar por um produto ruim como o CD. Melhorando a embalagem uma parte dos consumidores pode retornar.

Compartilhar arquivos digitais é pirataria – Pirataria é obter vantagens financeiras com o trabalho de outras pessoas sem compensá-las por isso. Essa é a opinião dos advogados do site Consultor Jurídico. Fã não é pirata, é divulgador.

Isso tudo é muito bonito mas esses negócios na internet não se sustentam ou são passageiros – é, em grande parte, verdade. A maioria não se sustenta mesmo, mas alguns se sustentam muito bem como o Google – que é gratuito e ganha uma fortuna com anúncios. É uma época de experimentação e muita coisa ainda vai dar errado. Mas é melhor experimentar que tentar manter um modelo que já não se sustenta faz tempo. Por isso é preciso se informar e aprender com o que vem dando resultado, ao invés de tentar segurar o tempo com as mãos. Um importante motivo para que esses novos negócios não se desenvolvam é a ação da RIAA e das editoras. Elas querem recuperar de uma vez a queda de suas receitas e acabam estrangulando o que poderia ser sua galinha dos ovos de ouro como o YouTube, MySpace, iMeem, Pandora, Spotify etc. Cobrar menos de muito mais gente é bem mais sensato que tentar criar uma escassez artificial e cobrar muito de poucos.

Se vocês tiverem mais dessas Críticas Frequentes, por favor, nos enviem para que possamos anexar à cartilha.

16 comentários:

  1. Parabéns Leoni. Concordo 100% com as respostas. Vou fazer breves comentários:

    "• Gravar custa dinheiro, portanto o download não pode ser gratuito"

    Afirmação ridícula. A web e a revolução do hardware para software barateou em milhares de vezes o processo. Quem quiser gravar um cd gastando pouco, consegue fácil. Se vai fazer sucesso ou não (e gerar receita) é outra história.

    "• Os artistas não estão tão preocupados por que podem fazer shows, mas e o compositor? Esse não pode permitir o download gratuito"

    O mercado está cada vez mais concorrido e volátil. Quem quer morder a fatia precisa ser polivalente (músico, intérprete, técnico, etc). Isso não é restrito às artes. Todo mundo está precisando se reciclar o tempo todo e isso faz parte do processo evolutivo.

    "• Baixar música de graça é o mesmo que entrar numa loja e roubar uma calça"

    Comentário mais ridículo que o primeiro. Sem mais.

    "• Ninguém vai continuar fazendo música sem ser remunerado"

    Esse comentário conseguiu me ofender. Artista faz música por necessidade incondicional, ou seja, amor. Quem faz música por dinheiro é publicitário.

    "• A pirataria existe porque o CD é caro"

    Concordo, mas diversos outros fatores provocaram a pirataria. O preço do CD é apenas um.

    "• Compartilhar arquivos digitais é pirataria"

    O fã quando se apaixona pela obra do artista, se apropria daquela música para sua vida e tem prazer em compartilhá-la com os amigos. O compartilhamento de arquivos seria uma excelente forma de divulgação/promoção de música, caso as gravadoras optassem por isto. Fizeram exatamente o oposto.

    "• Isso tudo é muito bonito mas esses negócios na internet não se sustentam ou são passageiros"

    A internet é apenas uma ferramenta de última geração. A diferença é que o manual de instruções está em constante atualização (rimou!). Um músico poderia muito bem viver sem vínculo com a web (assim como qualquer pessoa), mas a facilidade e o acesso de praticamente qualquer lugar do mundo é um atrativo que deve ser levado em conta, quando se almeja uma carreira de sucesso.

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  2. Belo post,
    sensato e bem fundamentado.

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  3. Muito bem, Leoni - keep up the good work!

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  4. "• Ninguém vai continuar fazendo música sem ser remunerado"
    Acho que não vai parar esta avalanche de amadores. Qualquer compositor hoje pode gravar com um custo bem menor e disponibilizar. Eu mesmo, que não vivo de música, acabei de montar um homestudio simples, e, cara, quase toda hora de folga sai uma música. Se vai ter alguém pra ouvir, acho que poucos, muito poucos, pois isto exigiria um tempo constante dedicado à divulgação deste trabalho, coisa que é quase impossível para mim hoje em dia. Mas, não deixarei de disponibilizar. Fico imaginando, quantos não estão fazendo isto exatamente agora?

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  5. Rafael,
    Não é que os amadores deixarão de existir - e é ótimo que existam - mas sim que os profissionais acharão formas de se diferenciar. É por isso que muitos - o Gerd Leonhard aí incluído - afirmam que o grande lance hoje é chamar a atenção para o seu trabalho. E isso começa do começo, com a sua base de fãs, cultivando-a expandindo-a com o tempo. Só consegue isso quem tem tempo e disposição (e algum $$$ para investir), ou seja, que esteja disposto a encarar o fazer música como algo profissional.

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  6. Sempre houve e sempre haverá os clichês que fazem a cabeça de muitas pessoas, que apenas repetem o que ouvem, mas sem pensar sobre o assunto. É o caso das perguntas muito bem escolhidas e respondidas pelo Leoni.

    Não há mais como parar essa onda... hoje já existem até partidos políticos que lutam pela causa (na Suécia e em outros países tb)!!!

    Muito bom o post!

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  7. "A pirataria existe porque o CD é caro"

    A pirataria existe pq o cliente nao consegue calcular a diferenca entre o CD pirata e o CD original.

    É o que chamamos de "valor para o cliente".

    Simples.Voce quer uma furadeira.Voce entra em uma loja e encontra um furadeira de 100 reais e outra de 20 reais.Voce nao é um cara profissional e esta apenas procurando algo que lhe proporcione "furos na parede".Voce testa as duas furadeiras e as duas lhe mostram um resultado identico.Lembrando que vc nao é um profisional, a escolha foi comprar a mais barata.Se voce precisar de outra furadeira no futuro, nao tem problema, pq o custo é baixo.

    A maioria das pessoas neste mundo esta apenas afim de escutar uma "musiquinha" e relaxar.Ela quer o beneficio central, que é o prazer de escutar certas cancoes saindo da caixa de som.Oras, se ela nao percebe a diferenca no produto central (musica) entre o cd do camelo, download ilegal e cd original, obviamente ela vai pro mais barato.
    Mas e a qualidade dA midia usada no cd pirata? Bem , o custo é tao baixo que depois ela compra um cd (pirata) mais recente, com musicas mais novas e por ai vai...

    Essa lei vale para cds,furadeiras,motel,caixa de fosforo...
    Quando o cliente nao percebe a diferenca no beneficio central dos produtos, ele compra o mais barato.Fato.

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    Quanto vale a porra de uma faixa de disco ????????????????????????????????

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  8. ta excelente o post.
    Acho só que seria legal realçar o quanto é criminoso os sites de download gratuito que ganham com publicidade e não repassam os valores para os artistas. Ta cheio disso. Desde blogs, a site com comunidades gigantescas de usuários (que até pagam pro site pelo acesso), que não pagam um tostão de direitos autorais ao compositores e produtores.

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  9. Pedro, adorei seu comentário. Só dá para cobrar caro o que não pode virar genérico. Uma assinatura do punho do artista pode ser copiada mas não terá o mesmo valor. Relacionamento com o mesmo artista também não pode ser vendido - chats, encontros, acesso ao backstage.
    Só o que é exclusivo e irreproduzível é escasso o suficiente para que tenha real valor e possa ser bem cobrado.

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  10. Christian, você tem razão. Mas a indústria nunca chegaria a um acordo para legalizar esses sites. Foi essa mesma indústria que perdeu o bonde do Napster e processa seus usuários. Se as gravadoras aceitassem receber uma compensação seria simples, mas elas querem tanto que inviabiliza a continuidade desses sites - que são excelentes divulgadores. A mesma coisa pode ser dita das editoras.
    O tempo é de negociar e não de impor.
    Para soluções, aconselho a leitura dos textos do Gerd Leonhar sobre compensaçnao ao invés de controle.

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  11. Aqui vai um link de um livro do Gerd Leonhard:
    http://musicaliquida.blogspot.com/2009/03/mais-um-e-book.html#comments

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  12. Nossa! Ótimo post!
    Bastante esclarecedor!

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  13. Caro Leoni, apresento aqui a minha contribuição: Tem uma solução para todos esses problemas sobre pirataria, direitos autorais, rendimentos dos artistas etc, e ainda permitir o downloads de músicas, vídeos etc. É que postei, faz pouco tempo, um artigo: http://www.zadoque.com/cadernos/sem-pirataria-01.html

    Se a idéia pegar, não só resolve todos os problemas citados e afastar a ameaça da censura na Web, como também pode garantir o trabalho para muita gente (na Web mesmo). Mesmo que essa idéia tenha suas falhas, vale a pena tentar superá-la. E se você achar que é boa, divulgue-a ao máximo. É apenas uma sugestão. Pois, se alguém tiver uma idéia melhor, igualmente eu a divulgaria. Ats. Zadoque

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  14. Caro Antonio Carlos, li o seu artigo e ele tem muito do que se pensa hoje a respeito de se cobrar pelo acesso ao conteúdo ao invés de cobrar pelos downloads. Você tem toda a razão.
    Vamos aos problemas:
    1) os detentores de direitos autorais não concordam e, inclusive, processam os usuários de seus produtos. Veja a RIAA que representa as gravadoras mandando para a corte universitários e mães de família para tentar, inutilmente, criar um clima de terror que desestimule o compartilhamento de arquivos. São eles que estão forçando governos a criar leis para defender seus ultrapassados modeos de negócio.
    2) Já tem gente chiando porque diz que não vai pagar por algo que não usa. Afinal ainda tem pessoas que não utilizam a rede para baixar conteúdo. Não acredito muito nisso, mas consumidores têm poder e quando eles reclamam acabam conseguindo o que querem.
    3) como distribuir os direitos de todo esse conteúdo já que não se trata só de música, mas estaria tudo incluído, inclusive informação.

    Isso não quer dizer que o caminho não seja esse, o da compensção ao invés do controle.

    Um pensador que vem alardeando esse conceito é o Gerd Leonhard. Vale a pena a leitura de seus livros.

    Dê uma olhada no post sobre o Spotify - que é um serviço de streaming de música ondemand - para entender esse modelo de negócio.

    Parabéns pelo seu texto. Esse ano o governo vai abrir a discussão sobre Direitos Autorais e gostaria de poder citá-lo duranto o Fórum. Você me autoriza?

    Abraços

    Leoni
    PS: desculpe a demora para te responder mas não tinha visto seu comentário.

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  15. Caro Leoni, claro que pode citar-me no fórum. Os problemas cruciais estão nos itens 1 e 2. O 3 pode ser deixado para depois. Realmente vai ser complicado. Vejamos:

    1 - Entra a questão da criação como objeto físico, associando a música e o vídeo a esse objeto (CDs, DVDs, vinis etc.). Na verdade essas criações VALORIZAM os objetos em si e vice-versa. Além disso, a coisa complica com o retorno dos toca-discos.

    2 - Esqueci desse detalhe: Tem gente que não baixa a música/vídeo através da Rede. O que significa que o modelo antigo de negócio ainda vai persistir, e talvez indefinitivamente.

    Vou desenvolver possíveis soluções para esses problemas. Se você permitir, estou postando o link dessa referência (o teu blog) no Twitter. O meu nome lá é ZadoqueImages. Zadoque.

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  16. Sua colaboração é sempre bem vinda. POde citar o blog, usar textos, fique à vontade. Por mim, a informação tem que circular.
    Abs

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