8 de dez de 2009

Pirataria 2.0

Deu no Webinsider em 3 de dezembro mais um bom artigo do Paulo Rebêlo. Para aprofundar o tema, sugiro seguir os links presentes ao longo do texto.

***

Você não paga pelo produto original, mas vai pagar pelo download ilegal. É a lei do mercado aplicada à risca pela indústria e pelos piratas.

Por Paulo Rebêlo

Passados dez anos do emblemático caso Napster vs Metallica, a indústria de entretenimento mirou onde viu e acertou onde não viu.

Pirataria 2.0 é quando você não se importa mais em pagar para ter acesso privilegiado (e ilegal) a todo tipo de conteúdo: filmes, música, pornografia, seriados, desenho animado, livros.

Conteúdo que até agora você sempre teve de graça. E em apenas uma fração de minuto pela conexão banda larga.

É extensa a lista dos sites que foram fechados e das tecnologias que desapareceram nesse intervalo de tempo. O golpe de misericórdia veio agora, final de 2009.

Após uma longa jornada de batalhas judiciais, conseguiram fechar ou intimidar sites outrora considerados imunes à perseguição. Caso do Demonoid, Mininova e The Pirate Bay, por exemplo.

Sobrou pouco. Alternativas menores e menos populares continuam disponíveis enquanto brigam judicialmente, fazendo com que advogados repensem uma série de princípios das relações comerciais e diplomáticas entre países.

Quem acompanha de perto o cenário tem até medo de ser processado ou perseguido por baixar arquivos da internet. Os precedentes são numerosos e a paranóia da indústria parece não ter limites.

Hoje temos provedores abrindo a conta de usuários “sob suspeição”. Temos operadoras sendo coagidas a capear a velocidade de conexão quando detectam o uso de protocolos para compartilhamento descentralizado, como torrent ou peer-to-peer (P2P).

Ocorre que nem sempre há coerção. Porque não há sequer uma mínima regulação sobre o assunto. Aqui no Brasil a gente sabe como, quando, onde e quem faz isso. Operadoras chegam a capear, limitar ou bloquear até mesmo conexões VoIP para você desistir de fazer ligações interurbanas (DDD) usando o Skype.

E não fazem a menor questão de especificar esse “recurso” em contrato. Aquele mesmo contrato que você assina sem ler. É todo o respaldo jurídico de que precisam. Sem um marco regulatório claro, não estão exatamente cometendo uma ilegalidade.

E o limbo entre a ilegalidade e a imoralidade é muito tênue.

Aqui o jogo começa a esquentar. Há exatos dez anos se fala em neutralidade de rede (net neutrality) e o conceito nunca deixou de ser exatamente isto: um conceito.

São centenas de teses de doutorado, estudos técnicos e extensos relatórios sobre a neutralidade de rede. Pode fazer o download desses documentos, não é pirataria.

Na prática, neutralidade de rede nunca saiu do papel. É uma regulação que só interessa ao consumidor, não interessa a nenhuma indústria.

Com tanta dedicação a coibir o uso de redes compartilhadas, a indústria não levou em conta que a falta de marcos regulatórios vale para todos.

E criou um monstro sem querer.

A pirataria depois de amanhã

É óbvio que a pirataria organizada (em alusão proposital ao crime organizado) iria achar solução. Sempre achou. E não tem nada de Sun Tzu.

Você vai pagar, mas não será para as detentoras das marcas ou dos direitos autorais. Não vai pagar pelo produto legalizado. Você vai pagar para fazer o download do conteúdo pirateado mesmo, por meio de redes particulares ou hubs criptografados que vão indexar e hospedar todo esse material. Como se fosse o cofre de uma conta bancária na Suíça ou o papel moeda das Ilhas Cayman.

Pirataria 2.0 já começou. E estão usando as mesmas armas da indústria.

A função do camelô da 25 de março em São Paulo ou do atravessador da Feira dos Importados em Brasília continuará a mesma. Só que além de vender jogos piratas do Playstation e o novo Windows, você também vai comprar uma senha para ter acesso a uma rede privada, anônima, criptografada. Uma rede própria da “loja” ou de um pool de piratas organizados.

Ele pode lhe vender um pendrive com o acesso que você precisa. Ou simplesmente escrever num papelzinho o endereço HTTPS e lhe vender só a senha. Até a sua bisavó vai saber digitar no Firefox. Mais fácil, impossível.

Neste exato momento, há um custo de manutenção sendo pago por um número mínimo de pessoas ao redor do mundo. Essas redes trabalham com criptografia, com transferências seguras via SSL por FTP e até mesmo usando pontos de presença móveis.

Várias delas usam os mesmos protocolos e certificações usados pelos sites de comércio eletrônico para garantir a privacidade e segurança do seu cartão de crédito.

A idéia nem é nova, está presente no submundo da internet há bastante tempo. Só nunca teve aceitação popular, nunca se popularizou como está sendo agora. Via de regra porque todo esse mundo de conteúdo ilegal ainda pode ser encontrado de graça, sem pagar nada.

Mas esses dias estão contados.

Até pouco tempo atrás, pensar em pagar por uma espécie de Napster privativo parecia loucura. Todos que tentaram (inclusive o próprio Napster) falharam.

Acontece que todos tentaram com conteúdo específico (nicho) e material legalizado (direitos autorais), um verdadeiro entrave se consideramos todas as amarras comerciais e jurídicas do processo. É o exato oposto das redes de compartilhamento que conhecemos até hoje e por onde transitam os terabytes de conteúdo ilegal a cada minuto.

Esse período de agora vai ficar marcado como o fim de uma rede de sistemas e protocolos baseada no compartilhamento de arquivos ilegais.

De agora em diante, quem antes compartilhava vai oferecer os mesmos arquivos ilegais, pela internet, do mesmo jeito. Só que por um preço. E muita gente já quer e vai querer pagar, pela facilidade e comodidade.

O embrião da Pirataria 2.0 está com grupos profissionais de piratas e contas pagas em serviços como o Rapidshare, um dos redutos o qual a indústria ainda não conseguiu – e nem vai conseguir – interromper. Sabe por quê?

Porque aqui não é a lei da selva que predomina, onde apenas o mais forte sobrevive. A indústria sempre foi e sempre será um grão de areia frente às possibilidades das redes telemáticas.

Trata-se simplesmente da boa e velha lei de mercado. Onde houver demanda, haverá oferta. Nunca deixou de ser assim. Se fechar uma porta aqui, ali na frente abrem duas.

Sites como Rapidshare ainda precisam de indexadores, no sentido de você saber o link exato ou onde encontrá-los. Ainda precisam de atravessadores, digamos assim.

Além de voltar a usar HTTP em redes privadas, a Pirataria 2.0 começa a adotar protocolos que perderam popularidade com o passar do tempo, como o FTP e a Usenet. Estão voltando a abolir a necessidade de indexadores. Só quem vai saber é quem for sócio.

É assim que funciona quase todas as redes de pedofilia, detalhadas ao extremo em relatórios produzidos pelas polícias internacionais e pelas instâncias jurídicas de todos os países.

Todo mundo sabe como funciona, mas ninguém consegue fechá-las. Por que? Pergunte a qualquer juíz se existe luz no fim do túnel.

As redes privadas e criptografadas da pirataria 2.0 vão funcionar quase como uma aldeia indígena no Brasil. Mesmo que haja suspeita de atos ilícitos lá dentro, ninguém entra sem uma autorização expressa da Funai.

Acontece que no ciberespaço não existe Funai. Os diversos órgãos regulatórios funcionam de direito, não funcionam de fato. Porque nunca foi interesse do mercado, não é interessante criar marcos regulatórios para o mercado.

Exceção à regra são alguns poucos países da União Européia, onde a cultura regulatória socialmente direcionada está mais presente. Não à toa, são os mesmos países criticados e combatidos pelas maiores corporações. Pensou na briga judicial Microsoft vs UE? Pois é. E ela é apenas uma.

Olhe para as agências reguladoras no Brasil (Anatel, Aneel e outras quitandas) e tire sua própria conclusão. Não ache que em outros países é muito diferente. A maioria dos órgãos com competências similares são meros mostruários de boas intenções sem a menor aplicabilidade.

Ou será à toa que o Brasil é o país com as tarifas de telecomunicações mais caras do mundo?

Sobre a pirataria de hoje

Se a boa intenção é conter a pirataria de software e conteúdo ilegal, é preciso deixar bem claro: só existem dois fatos concretos, o resto é opinião e ideologia:

1) Pirataria (ainda) é crime e sites indexadores de torrent são, sim, uma fonte irrestrita de pirataria. É pueril adotar o argumento de que esses sites não hospedam os arquivos, mas apenas apontam o caminho de onde estão; logo, não poderiam ser incriminados.

2) Partindo da premissa 1, se indicar o caminho para conteúdo ilegal vai passar a ser configurado juridicamente como oferta de conteúdo ilegal, então é preciso fechar toda a internet. A começar pelo Google.

Pelo Google eu encontro qualquer torrent. Pelo Google e por qualquer outro mecanismo de busca, eu encontro redes públicas e privadas de pedofilia, remédios falsificados para comprar, contato de grupos de extermínio ou posso simplesmente achar linhas de código que me permitam descobrir senhas de terceiros.

Vamos fechar o Google? Vamos exigir uma autorização especial para usar internet, tipo uma licença de uso ou carteira de motorista?

Enquanto não houver regulações claras sobre a atuação das corporações e fiscalizações peremptórias por parte dos órgãos regulatórios, a lei do mercado sempre vai prevalecer.

E isso não é necessariamente ruim. É quando entra a ideologia de cada um. A lei de mercado sempre foi o desejo da indústria, para defender “os interesses dos artistas” (copyright) e “combater o tráfico de drogas” (o discurso atual). Sem esse desejo incontrolável e tão perseguido, não teríamos a Pirataria 2.0 que surge no horizonte.

Porque agora os interesses são mútuos.

***

Paulo Rebêlo (rebelo@webinsider.com.br) é subeditor sênior do Webinsider e cronista bissexto na Hipopocaranga.

11 comentários:

  1. Muito interessante o post. Não tinha pensado nisso ainda. Vou retwittar.

    ResponderExcluir
  2. Excelente artigo, prova que a tecnologia evolui para os dois lados e, sinceramente, penso ser cada vez mais difícil encontrar um equilíbrio de interesse entre as partes.

    ResponderExcluir
  3. A pirataria está cada vez mais pirata. Já há muitos sites de downloads de filmes que são pagos - não os filmes, mas o serviço do pirata. Mas como eles têm tudo, tem muita gente que paga.

    Está na hora de cair na real e desistir de controlar. As pessoas querem pagar por um serviço prático, eficiente e seguro. Por que as gravadoras não criam esse serviço? Ou os estúdios de Hollywood?

    A música como produto, na rede, no formato que conhecemos, não vai ser o futuro da música. Aliás, já não é, no presente, nada significativo.

    Temos que partir para algo que as pessoas queiram comprar, seja em forma de serviço, seja de produto. Acredito mais no primeiro.

    Grande texto! Vou citá-lo no encontro do dia 17 com pessoas da indústria, das sociedades e das rádios. Também estaremos presentes o Teatro Mágico, Tico Santa Cruz, For Fun e eu.

    ResponderExcluir
  4. Excelente post. Vim por indicação do Leoni no twitter. Seu relato é impressionante. É como dar uma espiada num futuro não tão distante, que já se mescla ao nosso presente.

    ResponderExcluir
  5. Bom artigo. E concordo com o Leoni.

    A pirataria sempre existiu e sempre vai existir. Gravar um fonograma executado por uma rádio em fita cassete, era piratear conteúdo. Mas não se falava nada, porque as majors não eram afetadas, visto a má qualidade das gravações e a utilização praticamente caseira.

    O acesso à tecnologia permitiu que os piratas se "profissionalizassem" para "competir" com as majors. Na minha opinião, ruim para a indústria, bom para a arte com produção cultural.

    O que vimos nessa década foi a descentralização do poder. Agora eu escuto o que eu realmente gosto e não o que as majors decidem que é bom. E tem espaço pra todo mundo. Com isso, muitos perderam, mas merecidamente. Faz-se um retrato do gosto da população que não é mais obrigada a digerir enlatados pronto para venda.

    Se as majors não fossem simplesmente fábricas de sucessos milionários, mas empresas voltadas para a arte e a produção cultural, já teriam se adaptado há muito tempo e estariam vendendo conteúdo de qualidade a preços acessíveis às realidades locais. O brasileiro, em geral, não pode pagar R$20 ouR$30 por um cd. Talvez centavos.

    O problema é que dessa forma talvez elas não sejam mais ser ricas... E, na minha opinião, é o que tem que acontecer!!!

    Viva o Teatro Mágico! A causa defendida por eles é, simplesmente, SENSACIONAL. Existem milhões de maneiras de agregar valor à música. Basta criatividade e negociação! Quem tem que ganhar dinheiro com música são aqueles que prezam a qualidade da arte! E não o vendedor que aprendeu a vender ar-condicionado pra pinguim.

    abs e sucesso

    ResponderExcluir
  6. Muito bom o texto! Parabéns por indicá-lo

    ResponderExcluir
  7. "Se as majors não fossem simplesmente fábricas de sucessos milionários, mas empresas voltadas para a arte e a produção cultural, já teriam se adaptado há muito tempo e estariam vendendo conteúdo de qualidade a preços acessíveis às realidades locais."

    Demonizar as gravadoras não ajuda muito a compreender o processo que estamos vivendo. Elas são fruto de seu tempo.

    As majors não eram apenas fábricas de sucessos milionários, embora também o fossem. Após uma evolução de décadas, faziam parte de um sistema complexo de produção, distribuição e divulgação que visava o lucro, sim, mas que possibilitou o surgimento de grandes artistas de grande apelo comercial, cuja renda subsidiava outros grandes artistas que não vendiam. Isso funcionou razoavelmente bem até os anos 80.

    A decadência desse sistema começou antes da internet, por ganância excessiva e estupidez. Mas foi com a web que o processo se acelerou e as gravadoras não souberam se adaptar a uma nova era onde, com um pouco mais de inteligência e visão, poderiam até liderar o processo de mudança. A guerra ao Napster foi o ponto da virada.

    Hoje estamos no meio do redemoinho. Por um lado é maravilhoso que tenhamos tanto acesso à informação e possamos também ser os criadores. Mas justamente porque o antigo modelo ruiu, permanecem as questões: como remunerar o verdadeiro talento? Como fazer com que ele se sobressaia num mar de irrelevâncias?

    ResponderExcluir
  8. As visões do Leoni e do Marcelo sobre a impossibilidade de controle e o potencial de ganho que a própria indústria poderia ter com a internet são precisas, realistas e coerentes. Sobre as questões suscitadas pelo Marcelo, acho que a remuneração do talento, passa pela questão da comercialização do produto/ serviço; acredito que produtos/ serviços LEGAIS e mais baratos do que os cds/dvds atuais têm viabilidade de comercialização pela web. Haverá alguma maneira de se quantificar que música, que banda, que autor "vende" mais e ele deverá ser remunerado proporcionalmente em razão do seu sucesso, diretamente pelo consumidor, ou por aquele que comercializa de forma legal, seu produto. Pode ser que isso venha a ser inviável caso se torne, mais ou menos, como pedir remuneração por uma rádio tocar sua música. Talvez... Quanto à questão de como o verdadeiro talento irá se sobressair, isso vai continuar ocorrendo como já ocorre com arte ou jogador de futebol: estar na hora certa, no lugar certo, sorte, acaso, carisma, e um monte de gente talentosa deixando de ser "descoberta". Abraços, Hugo

    ResponderExcluir
  9. Mas justamente porque o antigo modelo ruiu, permanecem as questões: (1) como remunerar o verdadeiro talento? (2) Como fazer com que ele se sobressaia num mar de irrelevâncias?

    ----

    (1) Acredito que num futuro não muito distante seja possível medir a audiência/execução de cada artista.

    (2) Acho que teremos ferramentas na linha do last.fm para ajudar os ouvintes a encontrarem mais facilmente os artistas.

    Achômetro puro. ;)

    Paulo

    ResponderExcluir
  10. Paulo,
    acho o mesmo que você, mas quem paga? E como?
    Eu acredito na música como serviço pago pelo consumidor. Não acredito muito no modelo pago pela publicidade. Mas posso estar inteiramente enganado.
    E você? O que acha?

    ResponderExcluir
  11. Leoni, acho que seria bom poder contar
    com os dois modelos: o gratuito e o pago.
    O free, no entanto, atenderia satistatoriamente
    apenas quem ouve pouca música (pouco tempo de
    audição ou baixa diversidade de músicas).

    Sobre o pagamento eu gostaria que fosse mais ou menos
    assim (sem levar em conta a viabilidade técnica):
    sou assinante e pago uma mensalidade de 30 reais
    por um plano de até 90 horas de audição/mês, por exemplo.
    Então esses 30 reais seriam distribuídos entre os artistas
    que ouvi, conforme o tempo de cada um.

    Digamos que num mês eu tenha ouvido as 90 horas do meu plano
    e, desse tempo, 3 horas tenham sido com músicas do Leoni, com destaque para "Dá pra rir e dá pra chorar", que sozinha teve 10 audições. ;)
    Nesse caso eu geraria uma receita de 1 real para o Leoni
    nesse período.

    Parece pouco, mas já é mais do atualmente eu gero de receita
    apenas ouvindo tuas músicas, ou seja, zero.

    Além disso esse 1 real é apenas de um ouvinte.

    Agora imagine 5 mil, 10 mil ouvintes...

    Bom, pode parecer viagem, mas seria legal se fosse algo nessa linha.

    O que acha?

    Paulo

    ResponderExcluir